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Vendo o mundo se mover

Com o desenrolar do Campeonato Europeu de Seleções, eu até tenho boas situações e personagens para um texto da minha série (que pretensão) O que move o mundo, que já apareceu aqui, ali e acolá. Mas a verdade é que no momento, não há a menor chance de eu parar para escrever algo que preste. Então, só pra não deixar passar, posto imagens que demonstram o que só o futebol é capaz de fazer:

Gol português contra a República Tcheca

Às vezes os portugueses me dão nos nervos, mas um coisa é certa, eles cantam o hino como ninguém

O gordinho light

A cara da eliminação diante da Alemanha 

O alemão vive em Portugal e tem que fazer a média com os derrotados

Essa imagem, obviamente, não é minha, mas posto porque a gozação é fantástica. Penso que machuca mais do que muitos chutes e pontapés, coisa que os “torcedores profissionais” adoram.

PS1: Um amigo sugeriu uma entrevista com os turcos da minha residência universitária, sobre a sensação durante o jogo de ontem, em a Turquia derrotou a Croácia nos pênaltis, após uma peleja ardida. Acho a idéia boa, o problema é achar o turcos, que devem estar bêbados em algum canto até agora…

PS2: Verei a final da Euro, dia 29 de junho, in loco. Se houver tempo ($), entro numa lan house e posto algo em “tempo real”. Se não der, as impressões chegarão bem atrasadas, mas chegarão.

A Paris que eu vejo

Estou sentado de frente para uma fonte do Jardim de Luxemburgo, no centro de Paris, quando um grupo de oito japoneses estaciona na minha vista. Pelas minhas contas, tiram 348 fotos iguais em menos de dois minutos, numa rotação frenética de câmeras de última geração.

 

Os japas seguem seu caminho e então consigo ver crianças brincando com pequenos barcos de madeiras no lago em volta da fonte. A técnica é simples: colocar o barquinho na água, empurrar com um pedaço de pau e correr em volta da fonte acompanhando o percurso da miniatura, enquanto se solta estridentes gargalhadas. Aquelas crianças poderiam estar de frente para um aparelho eletrônico qualquer de última geração, mas preferem o jardim e os barquinhos. E eu prefiro vê-las brincando a ver japoneses tirando fotos sem nem parar para observar à olho nu o que estão registrando.   

 

Agora caminho pelo Champ de Mars, um vasto campo gramado que conduz até o pé da Torre Eiffel. Ali, centenas de crianças, acompanhadas por auxiliares escolares, lancham tranqüilas e sorriem com sinceridade. Os mais ativos pegam os sanduíches dos tímidos e saem correndo, só para perturbar – eu fazia isso. As meninas sentam juntas e não dão vez aos gaiatos, que fazem poses esdrúxulas e caretas para as fotos. O certo é que nenhum deles dá bola para o fato de logo adiante estar o monumento mais visitado do mundo. Turistas de todo canto cansam as pernas em filas intermináveis para subir na torre, sem perceber que a verdadeira beleza podia ser vista embaixo, e não de cima.

 

Continuo caminhando e chego ao Trocadêro, de onde posso ver a Eiffel por inteira, sem filas e sem prédios empresariais na frente. Um casal norueguês pede que eu faça uma foto sua com as filhas pequenas, a torre de pano de fundo. As meninas estão alegres e eu fotografo, mas elas querem sair logo dos braços dos pais. O objetivo é descer escorregando, quantas vezes for possível, uma rampa de menos de dois metros – o acesso para deficientes físicos – que vira parque de diversões.

 

Ao lado do Trocadêro está o Museu do Homem, uma viagem fabulosa pela evolução histórica do ser humano, do ponto de vista biológico, etnológico e social. Invisto um bom tempo ali dentro. As pequenas norueguesas não precisam disso. A evolução de suas histórias está apenas no início.

 

Já no Jardim de Tuileries, a 300 metros do excessivo acervo do Museu do Louvre, topo com aquilo que considero a maior obra-prima da humanidade: crianças jogando futebol sem compromisso. Alguns são bem brancos, uns algo árabes e outros muito negros. Os negros têm maior intimidade com a bola e controlam a pelota com mais destreza que os brancos. Esses ocupam o espaço de jogo de forma mais equilibrada. E assim, sem tática ou muitas regras, cada um com seus méritos, eles brincam com liberdade e fazem o jogo da bola em pé de igualdade. Oxalá descubram cedo a fraternidade.   

 

Vendo as crianças jogarem bola, lembrei de algo que escrevi há algum tempo – mais de um ano -, sobre uma idéia de plano para o futuro. Consistia em, diariamente, quando o sol começasse a baixar e o céu avermelhasse, ficar sentado num campo gramado na companhia de dois ou três grandes amigos e um grande amor. Naquele campo, várias crianças se reuniriam para jogar bola, empinar pipa, pular elástico, brincar de amarelinha, enfim, para fazer todo tipo de coisa que toda criança deveria fazer o tempo todo durante toda a infância. O problema é que ao final do campo existiria um enorme precipício, daqueles que não se vê o fundo e quem tenta olhar lá pra baixo, perde o prumo. Então eu ia ficar ali, só observando as crianças brincarem. Quando alguma, mais desatenta, se aproximasse do precipício, um dos “grandes” iria detê-la, dar um sopro no umbigo, uma mordida na bochecha e mandá-la de volta pra brincadeira. Pois, era o que eu ia fazer diariamente.

 

De um ano pra cá, andei muito, conheci pessoas e lugares. Assim, já encuquei com diversas outras possibilidades de plano para a vida futura. No entanto, em verdade, digo: poucas delas me dariam tanto prazer quanto aquela antiga idéia. E C`est fini.   

 

Ao velho Antônio

Sem sombras ou tato

 Anunciava-se o natal de 2007 e minha coroa pediu que eu escrevesse algo sobre “agradecimento”, para que ela enviasse aos amigos no seu cartão de felicitações. Derrapando, escrevi. E já o fiz sabendo que teria que voltar ao tema para a Trezena de Santo Antônio 2008. “Uma versão estendida”, dizia Dona Nanci.

 

Inicio o presente texto com tal explicação somente para confessar que desde janeiro procuro palavras para a versão “plus” do “agradecimento”. Necas! É muito difícil escrever sobre algo que não se pode ver ou cheirar. É como o Aureliano de García Márquez, que antes de virar um coronel de guerrilha na luta pela causa liberal, não entendia como os seres humanos chegam a fazer uma guerra por coisas que não se pode tocar com as mãos.

 

Dia desses, perambulando por estreitas vielas portuguesas, vi uma senhora oferecendo um pão a um pedinte. Ele mordeu e mal a mulher deu as costas, cuspiu. Foi sua forma de agradecer.

 

Por outro lado, há alguns meses, topei com crianças marroquinas no meio do deserto do Saara. Todas muito sujas, uma pena. Eufóricas, querem qualquer coisa dos visitantes. O máximo que pude fazer foi tirar fotos. “Shukran”, em árabe, quer dizer “obrigado”. Não ouvi isso das crianças, mas o olhar agradeceu por elas.

 

Aprendi com Dona Nanci a agradecer, mesmo que em pensamento, pela sorte de encontrar seres humanos exemplares nas minhas trilhas. De que valem as vitórias sem alguém para compartilhar cada conquista? Mesmo que a troca seja só com um sorriso. Mesmo que ninguém veja aquele sorriso.

 

Aprendi que estamos todos protegidos por uma energia qualquer que paira por aí. Agradeço a proteção. Aprendi a sonhar e pisar com firmeza. A falar alto e calar muito. Todos agradecem por um pouco de silêncio. Aprendi a tatear paredes e andar no mundo. Apreendi o mundo. Agradeço por tudo isso. Ainda há muito que aprender. Talvez haja mais a agradecer. Não sei.

 

Só sei que vivo num mundo cheio de guerras feitas por causas que não se pode tocar com as mãos. No meio de uma dessas guerras, um personagem de Mia Couto, velho, conta ter vivido num tempo em que o amor era uma coisa perigosa. “Tu”, diz o mesmo velho a um jovem, “vives num tempo em que o amor é uma coisa estúpida.”. Admito minha estupidez. Agradeço pelo amor.

 

E sigo assim, pra ver o que acontece. Como o feijão de Ogum e caminho agradecendo a Santo Antonio pela caminhada, na espera de algum dia encontrar forma melhor de falar sobre coisas que não se pode ver ou cheirar. Por enquanto, ainda prefiro as palavras do natal passado:

 

Alguns agradecem por cifras contabilizadas

Outros agradecem por prêmios recebidos

Há os que agradecem por notas conferidas

E os que o fazem por prendas ofertadas

Muitos nunca agradeceram

Outros tantos agradecem demais

Existem aqueles que só usam sorrisos

Existem também os que redigem tratados

Agradecer pelo alimento é previsível

Pela paz é necessário

Pescadores agradecem pelo céu límpido

Sertanejos pela chuva exata

E tem os que agradecem por oportunidades

Intocáveis e invisíveis

Que não têm cheiro ou sabor

Guardadas numa caixa imaginária

Transmutadas em vitórias alcançadas

Isso é que todos merecem

Ao fim

Todos agradecem

 

Por Victor Uchôa, em 31.05.2008, de Lisboa/Portugal

 

A tarde em Lisboa é nublada. O sol da primavera lusitana não consegue mostrar sua força. Prevalece o vento do Tejo, sempre cortante. Após uma semana de tempestades em todas as regiões de Portugal, os organizadores do Rock in Rio não contam com o tempo desejado, mas já agradecem por uma trégua. A chuva parece não ter a intenção de chegar.

 

O clima muda quando Ivete Sangalo entra no palco principal. Sem rodeios, a baiana executa canção após canção. O público não consegue se manter imparcial à presença de Ivete. E a fusão do Samba-reggae com o frevo agalopado, alquimia da Bahia, batizada Axé Music, prova mais uma vez, agora no além-mar, que tem potência para pegar na multidão.

 

Ivete não pára um só minuto. Toca guitarra, acompanha os bailarinos enquanto canta, desce do palco e corre em meio à platéia. Perder o tom nem pensar, ainda mais com o suporte da sua excelente banda, que apresenta ao mundo a percussão marcante dos terreiros de candomblé em perfeita sintonia com os agudos dos metais. Tudo isso arquitetado pelo maestro Letieres, que sabe (muito bem) o que faz – a Rumpilezz Orkestra está aí pra não me deixar mentir.  

 

E eu, que nunca fui fã fervoroso do tal Axé, porém nascido e bem crescido na Boa Terra, entro fácil no embalo de Ivete Sangalo. Todos entram. No meio do público, um australiano com cara de caçador de crocodilos – cavanhaque, colete cargo e chapéu safári – não entendia patavinas do show, mas admitiu: “A energia dela é fantástica”. E as 90 mil pessoas presentes se rendem à energia do carnaval de Salvador.

 

A noite cai sobre o Tejo e com muito atraso, já sob as vaias dos mais impacientes, chega ao palco a maior atração do evento para grande parte do público: Amy Winehouse, única britânica da história a arrebatar cinco Grammys em uma só noite, na última edição da premiação.

 

O álbum contemplado, Back to Black, merece todas as honras. Recheado com o que o mercado estadunidense chama, genericamente, de rhythm and blues, conta com pitadas exatas de reggae, funk e soul. Sem falar da voz de Winehouse: variação tonal para preencher qualquer vazio.

 

Antes de mais é preciso dizer que até o dia do show ninguém em Portugal sabia se a cantora apareceria. Tomada pelas drogas e constantemente envolvida com agressões físicas, presa vez ou outra, a presença da inglesa no Rock in Rio era uma incógnita. Mas ela apareceu. E aí, no palco…Bem, no palco…Em um estado de embriaguez que impedia a realização de mínimas ações, como colocar o microfone no pedestal, Amy Winehouse deixa sua Big Band visivelmente desconcertada. Instrumentistas e backing vocals, todos de primeira linha, levam o show nas costas. Um dos cantores chega a assumir a voz principal em diversos momentos. A banda, infelizmente, não tem nem espaço pra mostrar todo o potencial, porque a cantora não consegue acompanhar.

 

Rouca, praticamente afônica, Winehouse é quase inaudível. Magra, aparentemente doente e visivelmente entorpecida, cambaleia frente ao público. “Deprimente” foi a palavra que mais se ouviu na platéia durante sua apresentação. Até as meninas fantasiadas de Amy, com óculos escuros sem mais tamanho ultrapassando os limites do rosto e penteados verticalizados, não conseguem esconder a decepção. Tímidos coros chegam a pedir a volta de Ivete, ou a entrada da atração seguinte, Lenny Kravitz (um espetáculo a parte, o qual não tenho linhas ou potencial suficientes pra descrever). E após 50 minutos, Amy Winehouse deixa o palco, melancólica.

 

No dia seguinte, um jornal português estampa: “Kravitz e Ivete ofuscam Winehouse na 1ª noite do Rock in Rio Lisboa.”. Roberta Medina, vice-presidente do Rock in Rio, em entrevista ao site oficial do evento, é sincera: “Ivete botou todo mundo pro alto. Já Amy estava…o que eu desejo do fundo do coração é que a emoção do público desperte nela outra posição. Porque é um talento incrível, sua banda é incrível, grandes músicos, mas ela de fato estava “um pouco” prejudicada.”.       

 

A questão aqui não é comparar as duas cantoras. São vozes diferentes. São conceitos musicais diferentes. A questão é ver como cada uma trabalha sua imagem e vende seu produto, a voz. Ivete Sangalo e Amy Winehouse são artistas de milhões de dólares, mas enquanto a primeira dá passos cada vez mais largos na carreira, a segunda talvez nem tenha tanto tempo mais de vida. Pobremente parafraseando, Ivete segue abalando com sua mistura de tambor, violino e agogô que não deixa ninguém parado. Na única tentativa de entrar no ritmo da banda, Winehouse arrisca uns passos de reggae e cai no palco do Rock in Rio Lisboa.

 

É por causa de exemplos como este que eu olho o Tejo e com a brisa no rosto me raciocino todo. Talvez seja exagero, talvez não, mas cá com meus botões, ouso dizer que nessa toada, o tal Axé, alquimia da Bahia, ainda vai dominar o mundo.   

 

 

     

Por Victor Uchôa, em 16.05.2008, de Braga/Portugal

 

Então eu fui surpreendido com um e-mail de Juliana Kalid, grande amiga que, para o seu novo blog, pedia uma crônica sobre minha relação com a cerveja na Europa. A surpresa não reside em ter que discorrer sobre tão querida matéria. A surpresa está em alguém pedir uma crônica a mim, que de crônica, só entendo da dor no calcanhar esquerdo que me acompanha há anos.

 

Porém, perseverante, tento. Daí, lembro do primeiro gole que tomei após cruzar o Atlântico, há oito meses: Super Bock, marca portuguesa. Ali, redefini conceitos para me adequar à nova vida. A cerveja européia tem mais álcool e por aqui se bebe, majoritariamente, cerveja tipo Ale, ou variações do tipo Lager com algumas diferenças em relação à Lager Pilsen, de maior consumo no Brasil.

 

Caberia uma explicação sobre a diversidade do processo químico de produção e fermentação de tantos tipos de cerveja, mas minhas notas de Química sempre foram péssimas e o Google está aí é pra isso mesmo. Foco essa ladainha no ritual da mesa de bar, o melhor lugar do universo para se jogar conversa fora.   

 

Existem algumas diferenças básicas entre “tomar uma” no Brasil e na Europa. Pra quem nasceu nos trópicos, talvez a mais marcante seja a temperatura, do ambiente e do precioso líquido. Não importa quão frio esteja, brasileiro gosta de cerveja gelada. Europeus contentam-se com a temperatura cházica.

 

Pior do que isso, só o fato de que no Velho Mundo é impossível tomar alguns goles petiscando o que deve obrigatoriamente ser petiscado com cerveja: carne do sol com mandioca, caranguejo, camarão ao alho e óleo e acarajé cortadinho com vatapá, dentre outras iguarias que tanto fazem falta nessa banda do planeta.

 

Não importa se estudante quebrado ou membro do Parlamento Europeu de Bruxelas, quem sentar numa mesa de bar na Europa, na praia, na montanha ou na cidade, dificilmente achará algo diferente de um sanduíche de frango ou um misto quente. É o fim do mundo.

 

Mas esses empresários sem visão empreendedora ganham o que merecem. Pelo menos eu e meus amigos fazemos nossa parte na tarefa de transformar a Europa num lugar melhor pra se viver. Em cada bar que sentamos, a primeira ação é avaliar as formas viáveis de sair dali com a maior quantidade possível de copos. E assim, já não sei como levarei tantos no meu retorno para o Brasil.

 

Fato é que quanto mais saborosa a cerveja, mais legal é o copo, o que nos leva à velha discussão sobre a melhor cerveja do mundo, muito comum na Europa. As belgas Stella Artois e Leffe e a irlandesa Guinness são referências recorrentes. Todas ótimas, atesto. Mas na minha humilde opinião, um barril de cada uma dessas não vale uma tulipa das alemãs Erdinger e Franziskaner, ambas de trigo. Sabor e textura inigualáveis. E o copo Erdinger é o mais legal da minha prateleira.

 

Porém, como estudante quebrado, não é todo dia que posso degustar em tão alto nível. O normal é cair pra dentro da já citada Super Bock ou da também portuguesa Sagres, que não deixam a desejar. Quando muito, invisto em Carlsberg, dinamarquesa que, além de muito boa, me faz sonhar com suas promoções de levar um vivente à final da Eurocopa 2008.

 

Na categoria “Goles em Trânsito”, destaque para a suavidade da espanhola Estrella Galicia, (a)provada em Santiago de Compostela. Na Itália, pizza de prosciutto crudo casa perfeitamente com a birra. De frente pro mar do Algarve português, um brinde com a nacional Tagus, que não tem nada demais, mas valeu pelo ambiente. Ainda no Algarve, algo da já conhecida mexicana Corona, que com um limão no gargalo tem o seu lugar. Visitando a Terra da Rainha, muito da australiana Foster`s, mais barata nas lojas de indianos. E lá, claro, de pub em pub, é impossível que eu lembre todos os experimentos. Consigo citar a famosa Budweiser, tcheca, além das britânicas Carling e John Smiths, a primeira bem encorpada, a segunda um tanto quanto ácida.

 

Não tive o fermentado prazer, mas um amigo descreveu sua visita à fábrica da Guinness, em Dublin, com o mesmo brilho no olhar do garoto Charlie ao entrar na fábrica de Willy Wonka. Para breve, planejo uma viagem em que pretendo passar por Amsterdam e Praga. A República Tcheca tem o maior consumo do planeta de litros de cerveja por habitante e é lá que está a região da Boêmia, onde se produz a melhor cevada do mundo. Ou seja, sendo Praga bonita ou não, estarei satisfeito. Quanto a Amsterdam, expectativa pela visita à fábrica da Heineken, além, é claro, do contexto Amsterdânico.

 

Por fim, após tanta prosopopéia, me raciocino todo e concluo que na Europa podem até estar as melhores cervejas do mundo, mas nada se compara a “tomar uma” na Bahia. É onde posso encher o peito e dizer em bom tom: “Ô, Vitória (ou as variantes “Minha Pedra”, “Minha Corrente”, “Grande” e “Sacanagem”), traga aquela que você guardou pra tomar depois que fechar. Cú de foca, meu pai!”. Então, tomo alguns goles enquanto petisco um acarajé cortadinho com vatapá, vendo o sol mergulhar na Baía. Ah, “e se calhar”, diriam os portugas, com um grande amor massageando meu calcanhar. 

 

A dona da régua T

 

Por Victor Uchôa, em 11.05.2008, de Braga/Portugal

 À Nanci Uchôa, autora dos meus dias

  

Você é uma mãe como eu imagino que são todas as outras.

Você pira quando apronto das minhas. E, fazer o que, eu sempre apronto das minhas.

Você sempre mostrou outros pontos de vista. Teimoso, sempre exigi argumentos. Você os tinha (tem).

Você não gostava quando eu calava demais. Agora conta ter captado meu ritmo. E funcionamos nessa sintonia.  

Você sonhou por você e por mim. Alguns sonhos já são concretos. São nossos.

Você tem a implicância necessária e o aborrecimento preciso.

Você tem a ternura completa e o sorriso exato.

Você chora com filmes que eu nem paro pra ver. E ri das besteiras que insisto em falar.

Você indica meus erros. E sempre pede que eu tome cuidado.  

Você desenhou nossa vida com esquadros. Calculou nossos riscos. Construiu nossa estrada.

Você agora se diz uma mulher terapeutizada. E caminha “respirando paz”, o que é bom.

Isso não impede que você continue pirando quando apronto das minhas. É a norma.

Mas você dá apoio irrestrito quando planejo aprontar algo novo. E eu ainda pretendo aprontar mais algumas.

Por essas e outras eu digo que você é uma mãe como imagino serem todas.

Uma mãe comum, mas, a sorte me sorriu e isso ninguém me tira, é a minha.

 

 

Por Victor Uchôa, em 07.05.2008, de Braga/Portugal

 

A realidade é espinhosa. Longe, um Atlântico de distância, não aplaudi in loco mais um título do Leão da Barra, rei do Santuário Ecológico Parque Sócio-ambiental de Canabrava, região bucólica da cidade da Bahia. Lá, e somente lá, a verde relva do Estádio Manoel Barradas já acolheu bailarinos da bola do quilate de Junior Touché, Elói, Dão (“não tem perdão, é bola no cordão”) e o inesquecível Renato Martins.

 

A realidade é espinhosa. Longe, um Atlântico de distância, preferi não comentar a mais recente conquista tomado pelo furor da (o) Vitória. Esperei que a poeira baixasse e que as taças de Porto deixassem meu corpo. Agora, detentor de todas as faculdades mentais e das notícias que inundaram as ruas de Salvador desde o finado domingo, calejo os dedos com algumas palavras.

 

Noves fora o fato de o título vir na última partida, pelo critério de gols marcados, torcer à distância é algo que eu só desejaria ao pior dos meus inimigos. Mais devastador do que isso, só torcer à distância dependendo da Igreja Universal do Reino de Deus. E explico.

 

Em Portugal, na residência universitária aonde vim parar, temos acesso à tal Record Internacional, emissora que transmite o único torneio do mundo que pode ser comparado à Premier League inglesa em termos de qualidade técnica e infra-estrutura de estádios.  Não hesite. Como já disse, a alternativa é única. Estou falando mesmo do brilhante Campeonato Baiano de Futebol.

 

Pois (sussuram os portugas com alguns ovos na boca), a TV do bispo leva o Baianão à lares nas províncias mais distantes do planeta, com um porém: a transmissão tem 30 minutos de defasagem. Ou seja, o otário aqui tem que ficar ligado no computador pra saber, ao vivo, o que de fato ocorre no certame da Boa Terra. Depois, corre pra frente da televisão pra ver cenas já construídas no plano das idéias. É uma espécie de Deja Vu pós-moderno que só a Record pode proporcionar aos crentes.

 

E a respeito da transmissão, paro por aqui. A preguiça impede que eu descreva todos os (vis) sentimentos que brotam no fundo da alma quando ouço os comentários do possível, e que os orixás nos protejam desse mal, futuro prefeito de Salvador, Raimundo Varela.

 

Quanto aos adversários, que valorizaram o título rubro-negro ao, enfim, disputarem até a última rodada, cada um que cuide das suas dores da forma mais conveniente. Eles vão dizer que o regulamento foi injusto. Vão dizer que o ex-time deles fez a melhor campanha. Vão dizer que ganharam três dos quatro clássicos do ano. Vão dizer até que os resultados foram arranjados. Que digam. Há anos eles choram, inundam as ruas e causam engarrafamentos, sem qualquer resultado.

 

Com certeza eles não vão comentar as imagens captadas pela ESPN Brasil (é claro que as poderosas e imparciais TV`s locais não têm, ou não veicularam tais imagens), onde torcedores do ex-quadrão de aço pedem que o elenco entregue o jogo contra o Vitória da Conquista, dado que com o resultado do Esporte Clube Vitória diante do Itabuna, naquele momento, o título estava muito longe da prateleira deles.

 

Fomos campeões através do número de gols marcados? Fomos. Esse era o regulamento. O que sei é que, de longe, com minhas taças de vinho barato, lutando contra as bem-feitorias da Record e, como sempre, roendo as unhas que já nem existem, eu ri por último. E não foi porque não entendi a piada.

*(com as devidas alterações de localidades para compreensão geral)

Em dúvida sobre como me deslocar de um bairro para outro numa pequena cidade portuguesa, abordo um homem de pele envelhecida e olhar desconfiado:

- Boa tarde, senhor, aqui passa ônibus que vai pra São Paulo?

- Não, menino, não passa.

Mal ele responde, surge um ônibus vindo da Bahia com destino ao Paraná, passando pelo Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo.

- Olha o ônibus aí – digo eu – o senhor acabou de afirmar que não passava.

- O menino perguntou se o ônibus ia pra São Paulo. Esse não vai. Ele vai pro Paraná…

 

A loja do indiano funciona 24 horas. Lanchonetes brasileiras lucram com açaí e coxinha de galinha. Restaurantes chineses são opções baratas. Africanos vendem bolsas falsificadas. O executivo com cara de nórdico lê Vargas Llosa no metrô. Tudo isto está em Londres.

 

A capital da Inglaterra é a maior cidade da Europa. Atrai turistas e sonhadores do mundo inteiro. A qualquer hora do dia ou da noite, as ruas centrais estão movimentadas, as opções culturais são amplas e os serviços funcionam com precisão britânica, com o perdão da obviedade.

 

Em verdade, não procurei acarajé pelas ruas de Londres, mas duvido que não encontrasse após um criterioso garimpo, ainda que congelado em pacotes de seis unidades. Lá, tudo há. Transita-se do local ao global a cada passo e o visitante perde-se em meio a tantos sotaques. É uma colcha de retalhos cultural, talvez por isso mesmo, vigiada incessantemente.

 

Cada movimento nas zonas públicas é registrado por incontáveis câmeras. O governo faz campanha maciça do seu programa de policiamento voluntário, em que cidadãos comuns dedicam o tempo livre a tomar conta da cidade.

 

Outra publicidade fala em sete milhões de olhos vigiando quem viaja ao lado no metrô. Existe um canal direto para denunciar qualquer atitude suspeita. O medo do terrorismo baniu quase completamente as lixeiras das ruas. São depósitos de bombas, justificam.

 

O fato é que o Big Ben ainda está de pé. A Tower Bridge também. A troca da guarda real acontece todos os dias sob o olhar de uma multidão de turistas desavisados como este que escreve, pois nada conseguem ver. Os parques urbanos são aquários de tranqüilidade e a brisa do Tamisa não agrada mais porque é gélida, de torcer a espinha. Porém, nada disso importa.

 

Importa que os que restaram dos punks podem andar sem que ninguém olhe atravessado para uma figura de moicano azul e 58 furos no rosto. Importa que os que ainda se dizem hippies podem dedilhar Lennon sem importunos. Importa que os amantes da nova música eletrônica, com todas as vertentes do trance que não sei onde vai parar, sentem-se contemplados ao lado dos punks e hippies. Como se sente contemplada a muçulmana que, de longe, era somente uma emigrante árabe com seu lenço cobrindo a cabeça, passeando no British Museum com os dois filhos. De perto, era uma muçulmana com um brilhante piercing de pedra no nariz. O lenço da cabeça, prendia com uma presilha Nike.

 

Caetano cantou procurar discos voadores em Londres. Gil cantou o verde tão lindo dos gramados campos de lá. Eu fiquei um tempo demasiado curto pra cantar algo. Pra definir Londres, prefiro a idéia de um jovem estudante, guia turístico nas horas vagas. Não o conheci, mas um amigo fez um tour com o dito cujo, que no final do passeio tirou o pigarro da garganta, olhou paras as meninotas em volta e mandou: “Agora eu acho que vocês têm que tirar uma foto comigo, porque essa é uma oportunidade rara. Eu estudo e trabalho em Londres. E diferentemente de todos que vocês encontrarão, eu nasci aqui”.    

 

Passo a bola

Cresci ouvindo meu sábio avô dizer que Tostão era o único centroavante do mundo que sabia jogar com e sem a bola.

 

Quanto ao mesmo craque, há alguns anos, Chico Buarque escreveu: “Na minha mesa, Tostão não chegou a ser botão. Eu já era bem crescido quando ele apareceu, e fica um pouco ridículo fazer botão de um jogador mais novo que você. Botões, para a garotada daquele tempo, eram venerados como ícones, beijados, polidos com flanela, concentrados em caixa de charuto e inegociáveis. Pois bem, vi o Tostão deslizar nos gramados e, sem querer desmerecê-lo, era mesmo um homem com braços e pernas. Nem por isso há de nascer um centroavante que se lhe compare…”.

 

Hoje, querendo atualizar a página para que ela não fique tão parada, tinha a intenção de escrever algo. Mas com a cabeça tomada pela espera que o Liverpool entre em campo, não consegui produzir.

 

Por isso passo a palavra a quem joga muito bem com elas, mesmo sendo difícil acreditar que ele seja mesmo um homem com braços e pernas:

 

Escritores, poetas e o futebol

 

Por Tostão, Folha de S. Paulo – 20.04.2008

 

De vez em quando, jornalistas de outras áreas, escritores, poetas, filósofos e artistas escrevem sobre futebol. Alguns fazem de rotina. Isso é ótimo. Por escreverem muito bem, não terem o olhar viciado nem conhecerem os clichês, eles enriquecem a crônica esportiva.

 

Muitos desses pensadores não entendem de detalhes técnicos e táticos nem querem entender. Isso também é ótimo.

 

Nelson Rodrigues tinha fama de não entender nada de futebol nem de ver o jogo por causa de uma limitação visual. Mestre Armando Nogueira, que entende muito do assunto e que tem ainda a alma de poeta e escritor, conta que assistia aos jogos no Maracanã ao lado de Nelson Rodrigues. Quando acabava a partida, Nelson segurava Armando pelo braço e perguntava: ‘Como foi o jogo?’. ‘Quem foi o craque?’.

 

Nelson Rodrigues ia para a redação do jornal e, com suas delirantes e espetaculares metáforas, escrevia os textos mais bonitos que já li sobre futebol.

 

As crônicas de Luís Fernando Veríssimo sobre futebol são também deliciosas. Uma que não esqueço é a do menino que ganha uma bola de presente do pai e pergunta: ‘Onde liga? Tem manual? É em inglês?’.

 

Aprendo também com as colunas escritas por jornalistas esportivos que leio diariamente nos principais jornais brasileiros. Todas vão além de detalhes técnicos e táticos.

 

Aprendo ainda com alguns comentários de programas diários de esportes de rádios e televisões e durante as transmissões de partidas. O ‘Linha de Passe’ e o ‘Pontapé Inicial’, ambos da ESPN Brasil, são imperdíveis.

 

Mauro César, Paulo Vinícius Coelho e Paulo Calçade, da ESPN Brasil, sabem muito de futebol. Paulo Vinícius compete com o Google. Gosto ainda dos comentários do Flávio Prado, na rádio Jovem Pan, e do Alberto Helena e do Marco Antônio, do Sportv. Há outros de que não me lembro neste momento.

 

No sonho, as minhas colunas seriam uma mistura de textos de vários colunistas esportivos, de Nelson Rodrigues, Luís Fernando Veríssimo e Carlos Heitor Cony, que deveria escrever mais sobre futebol. Acordo e não fico frustrado. Sinto apenas uma inveja, uma boa e carinhosa inveja.

 

Tento apenas escrever textos claros, concisos e técnicos. Quase sempre não consigo. Mas ainda vou aprender. Sou novo. Não tenho orgulho nem vergonha de aprender.

 

Juca Kfouri, uma das minhas referências na crônica esportiva, disse que meus textos parecem com os de Graciliano Ramos. Juca, menos, menos. Além disso, gosto de adjetivos e palavras bonitas. Graciliano detestava. Por isso, escreveu: ‘As palavras existem para dizer, e não para enfeitar’.

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