Por Victor Uchôa, em 04.05.2009
Se eu tivesse cancha para escrever um texto com qualidade, com certeza não começaria uma pretensa ode ao Vitória citando Armando Nogueira, que, genial, desvendou com palavras a emoção que o (então) glorioso Botafogo lhe proporcionou um dia: “O futebol é assim: desperta na pessoa um sentimento virtuoso que transcende a amizade, que vai além do amor e culmina no santo desvario da paixão. Tem de tudo um pouco, porém, é mais que tudo. Torcer para uma camisa é plena entrega. É mais que ser mãe, porque não desdobra fibra por fibra o coração. Destroça-o de uma vez no desespero de uma derrota. Em compensação, remoça-o no delírio de uma vitória.”
Desvairados pela paixão, rubro-negros chegam à decisão de mais um Campeonato Baiano. Chegam sem dar bola para o nível técnico da competição. Chegam apostando na saudade de um brilhantismo que, ao menos este ano, nunca foi, e na possibilidade de um dia seguinte com o corpo estampado pelo manto ao qual se entregam em plenitude.
Em sua definição, Nogueira só erra ao dizer que o futebol não desdobra fibra por fibra o coração. Desdobra sim. Uma a uma. E a primeira delas vai embora com a chuva em Salvador. No campo pesado, como prevalecer a articulação de Apodi, Bida e Jackson, o mais perto da poesia que o futebol baiano chegou em 2009? Naufraga a chance do imprevisível, deixando à deriva a magia de um time incisivo. Assim, as bolas versadas bóiam em um gramado encharcado. Sucumbem diante do tecnicismo que despreza a alegria de um esporte que tem de tudo um pouco, porém (e por isso mesmo), é mais que tudo.
Sobressai a prosa padronizada do Bahia e assim, sob a tempestade, nasce o gol adversário. Menos uma fibra no peito. O relógio não pára. Outras fibras se vão. Até que, no derradeiro suspiro do primeiro tempo, o tento que nos tira o título. O placar inatingível estava posto.
Sem fibras a mais para serem desdobradas, o peito se converte em um vazio sem fim. Qualquer idéia que resvale na razão se distancia da mente, entregue à tormenta dos impropérios. Na arquibancada do Barradão, surge a tantas vezes proclamada, mas nunca cumprida sentença: “Aqui, não venho mais!”
Chega a segunda etapa. À reboque, a arca que resgata os leões do dilúvio. Neto Baiano, o artilheiro jamais querido pela torcida, o matador da desconfiança, devolve a taça a seu devido lugar. Com um gol, costura o coração rubro-negro e faz brilhar o até então nebuloso sorriso. Ao sofrer o pênalti convertido por Ramon, reconstrói quase por completo um peito inundado de felicidade.
Título garantido, faltava somente um detalhe: a taça, que vai ao chão enlameado junto com os jogadores. A chuva já não incomoda mais. Chega a ser bem-vinda. Todos os sentidos estão voltados para a taça. Ela, como em 13 vezes nos últimos 16 anos, é nossa. Naquele momento, eu, que em 2008 acompanhei o bicampeonato de longe, um Atlântico de distância, senti o peito aliviado por ser completo. Somos tri. No fronte oposto, sete anos sem o deleite da mínima conquista. E assim, banhado no delírio da(o) Vitória, remoçado estava meu coração. E remoçado está, ainda que eu não consiga expressar tal sentimento com alguma qualidade.
Um remoçado (rubro-negro) coração
Maio 5, 2009 por xumiuchoa