Os raros e ilustres visitantes que passam por aqui já notaram que o blog anda jogado às traças. Tenho muitas justificativas para isso, nenhuma convincente. Então, para dar vida à este cacete armado, posto apenas uma pequena resenha produzida para o jornal que, sei lá por que, me paga, mas é sim, ele mesmo, o culpado pelo abandono do blog.
Como a resenha não foi aproveitada, vai aqui. Às traças.
Veneno Remédio
Victor Uchôa
De que forma o futebol influencia no comportamento da sociedade brasileira? Como o esporte mais popular do mundo dialoga com a nossa literatura e nosso cancioneiro popular? Há relação entre o jogo da bola e a idéia, por vezes distante, de “democracia racial”?
Estas e outras questões são o ponto de partida do ensaio Veneno Remédio, livro do professor de literatura da USP, músico e compositor José MiguelWisnik, que estudou por quatro anos o esporte inventado pelos ingleses mas que, mesmo que muitos contestem, é a cara do Brasil.
Apesar de mesclar filosofia, sociologia e crítica estética, o texto de Wisnik proporciona leitura rápida e prazerosa. É como assistir, da tribuna de honra, uma partida imaginária em que Pelé e Chico Buarque tabelam na meia-cancha. No lado oposto do gramado, Tostão finta meio time e deixa Machado de Assis na cara do gol.
O diferencial do ensaio de Wisnik está no foco. Em geral, os estudos que relacionam futebol com política, sociedade ou economia, deixam de lado a essência do jogo, que é o que faz dele uma atividade apaixonante para bilhões de pessoas no mundo todo, dos campos de terra batida até os estádios mais modernos.
No Brasil, devido a forma como o futebol está presente no cotidiano, ele é capaz de explicar
algumas de nossas forças e fraquezas mais marcantes, ajudando a ver por outro ângulo a formação da nossa identidade.
Torcedor do Santos, Wisnik cresceu batendo bola na beira do mar e percebeu ainda novo o poder mítico que o futebol exerce sobre muitas pessoas. Assim, encara o esporte como uma “linguagem”, com “discurso” e “gramática” próprios. Traz o conceito do futebol europeu como prosa, ao tempo que na América do Sul se joga com poesia, representação de inventividade e improviso, características próprias do Brasil.
Veneno Remédio vale para os que gostam e os que não gostam de futebol. Citado no livro, é Nelson Rodrigues quem define a questão: “A mais sórdida das peladas é de uma complexidade shakespeariana”.