Por Victor Uchôa, em 20.08.2008
Os oito corredores estão em suas marcas na pista de Atletismo do Estádio Olímpico de Pequim. Em instantes, alguns dos homens mais velozes do mundo disputarão a final dos 200 metros rasos. Apresentados ao público, exibem olhares inibidores. Querem mostrar que são maus, que são bons.
A exceção é o jamaicano Usain Bolt, que já tem nome de raio. Ele balança o corpo, olha sua própria imagem no telão, sapateia e solta beijos. A multidão delira. Bolt já tinha vencido os 100 metros e sabia que ia vencer os 200. Todos sabiam. Por isso a final dos 200 foi emocionante. Não porque houve grande disputa pra se conhecer o grande vencedor. Mas pela forma como o grande vencedor venceu.
No dia anterior à final dos 200 metros, um repórter brasileiro disse a um colega jamaicano: “Amanhã é a grande noite!” Ouviu a singela resposta: “Engano seu, amigo. Só há grandes noites quando há competição!”. Mas a noite foi grande.
Menos de 20 segundos separaram Usain Bolt da linha de partida à linha de chegada. Alguns metros separaram Usain Bolt do seu adversário mais próximo. E a prova só tinha 200 metros. Como nos 100, ele bateu o recorde mundial. O raio, ao contrário do que muitos pensavam, caiu duas vezes no mesmo lugar. Apoteose no Ninho do Pássaro. Os jornalistas João Palomino e José Trajano, da ESPN Brasil, ambos com algumas copas do mundo e olimpíadas no currículo, definiram aquele como um dos grandes momentos da carreira.
A Globo, sempre a Globo, se deu até ao trabalho de interromper a programação para transmitir ao vivo a prova. Mal Bolt cruzou a linha de chegada, a emissora cortou para Power Rangers. Meus pêsames. Grande parte do público brasileiro perdeu a chance de ver o jamaicano sacar suas sapatilhas douradas e dançar reggae no meio do Ninho do Pássaro, idolatrado por uma platéia em êxtase.
Após a festa, Bolt declarou que quando começa a correr, seu objetivo é acabar com aquilo o mais rápido possível, pra cair logo no balanço do reggae. Ele completa 22 anos amanhã. Tem a energia da juventude e é o homem mais rápido do mundo. Encerra as entrevistas com frases de Bob Marley. É um fenômeno em essência. Um carisma diferenciado.
Muitos vão dizer, como já disseram, que Usain Bolt é marrento. E ele é. Mas o jamaicano sabe exatamente o que precisa fazer pra vencer. Alguns especialistas criticaram sua performance nos 100 metros, quando ele diminuiu o ritmo no final da prova e começou a comemorar antes de cruzar a linha, batendo no peito. Por que criticar? Talvez porque Bolt não seja estadunidense, não seja da superpotência militar que tudo pode. Ou talvez porque Bolt não seja da China, ao que parece, a nova potência esportiva, que determina à força o futuro dos seus atletas.
Com orgulho, Bolt é da Jamaica, uma ilha pobre no meio do Caribe com pouco mais de 10 mil km², de onde saiu a única música criada no setor subdesenvolvido do mundo que ganhou adeptos em todo o planeta. Os Jogos Olímpicos de Pequim formam o maior evento esportivo da história. São bilhões de pessoas com os olhos voltados para uma única cidade. A cada vitória, todos são obrigados a se curvar frente às sapatilhas douradas de Bolt. É o momento dele. Em quatro anos, é a única oportunidade que um ser humano tem de bater no peito e dizer: “Eu sou o número um. Sou o melhor. Eu sou um raio!”