Por Victor Uchôa, em 28.07.2008
O sábado não decidia se ficava com o sol ou a chuva e eu não decidia se comia a sobra da sexta ou cozinhava algo novo, até minha coroa ligar e pedir que eu convidasse o filho da vizinha, Rafael, para comer conosco num restaurante na rua.
Quer dizer: você tem certeza absoluta que não pode confiar num jornalista quando, logo no início de um texto, ele chama de restaurante um cacete armado no meio de uma feira, onde os pratos do dia estão indicados a giz num quadro negro junto ao balcão do bar. Mas tudo bem. No fundo, no fundo, o que importa é que em locais como aquele a comida é bem mais saborosa do que em restaurantes cheios de nove horas e o preço não sobe com o petróleo ou a taxa selic. Além do mais, no cacete armado em questão, o filé mal passado é bem macio e o fígado acebolado, coerentemente, vem com muita cebola. Fecha parêntese.
Então estávamos lá no restaurante eu, minha coroa e Rafael, nove anos de idade, óculos de aro grosso e mais idéias na cabeça do que o que ele consegue expressar. Atualmente, sua maior ocupação é catalogar dezenas de moedas que eu lhe dei de presente após voltar de Portugal. São moedas de variados períodos dos mais diversos países, da Hungria às Filipinas, da Romênia aos Estados Unidos. Faziam parte de uma coleção que eu guardava desde a infância, sem muito zelo, é verdade, mas eu achava que conseguiria preservar e fazê-la chegar aos meus filhos. Até que voltei de Portugal e resolvi dar a Rafael e sua mãe conta que todos os dias ele pergunta sobre como poderia me agradecer. Já agradeceu.
Isso porque no sábado, enquanto o vendedor de DVD`s piratas apresentava suas novidades, a garçonete pergunta se queremos um aperitivo antes do almoço. “Até queria, mas não sei se posso, estou dirigindo e esse negócio de Lei Seca está um caso sério”, digo eu, ainda me adaptando à nova realidade. Minha mãe completa: “Pra mim, o maior problema de todos é ficar sem a carteira (de motorista). E estão tomando mesmo, principalmente de quem tem carteira relativamente nova.”. Rafael emenda de bate pronto: “Ainda bem que eu não trouxe a minha!”. “Como assim, Rafa?”. “Minha carteira está novinha, ganhei de presente há pouco tempo e sua mãe disse que eles estão tomando as carteiras novas”, diz ele com uma brilhante inocência.
O fígado chega, mas Rafael está mais preocupado com o sorteio da Mega-Sena, então acumulada em R$ 52 milhões: “O que vocês fariam se ganhassem esse dinheiro?”, questiona. Eu e minha mãe passamos algum tempo discorrendo sobre coisas sem importância, como viagens à Machu Picchu e ao Camboja ou comprar um terreno encravado no Vale do Capão, na Chapada Diamantina, antes de Rafa apresentar seus planos: “Eu aplicaria R$ 10 milhões na poupança, ficaria com R$ 40 milhões pra gastar e colocaria R$ 2 milhões no mercado de valores.”. “É o que, rapaz?”. “Mercado de valores, isso mesmo!”. “E por que somente R$ 2 milhões e não 12, já que você vai ficar com 40 pra gastar?”. “Porque se a bolsa cair eu não perco tanto dinheiro!”. E eu não tinha visto o óbvio.
Rafael continua contando um bom punhado de histórias, mas, por culpa do filé, não lembro de todas. Sei que após a refeição minha mãe foi resgatada por amigas que a levaram para um canto qualquer, enquanto eu e Rafa seguimos juntos pra casa. No carro, ele comia um doce comprado na feira. Provei e não gostei. Confessei a ele que o único doce que eu realmente aprecio é brigadeiro. Rafael concordou à respeito da soberania dos brigadeiros perante os outros doces. Então, muito seguro, emendei: “Festa pra mim tem que ter brigadeiro. De aniversário de criança até casamento. Se não tiver brigadeiro não é festa. Se algum dia eu for prefeito, Rafa, vou fazer uma lei pra obrigar todo mundo a botar brigadeiro nas festas que fizer!”. Mal eu terminei de formular aquele que achava ser um brilhante raciocínio, Rafael decretou: “Mas aí você acaba com o livre arbítrio das pessoas!”. E o pior (ou melhor) é que ele tem toda razão.
Já disse.
De uma leveza incomparável.
Genial, diria eu. Seria Rafael um discípulo do nosso querido Alexei? Beijos, vizis!