Por Victor Uchôa, em 21.07.2008
Após quase um ano respirando ares europeizados, um homem sabe que está em casa, no caso, a Bahia, quando senta num bar para assistir uma peleja futebolística e, mal se acomoda na cadeira, ouve retumbante: “Veeeeeenha, viaaaado. Sente aqui de meu lado, seu corno, que hoje a porra do Vitória vai brocar o Flamengo lááá, bem no Maraca”. Após a delicada convocação, olho pro lado e vejo dois amigos se abraçando com notável prazer. Afago mútuo.
Enquanto acompanho a peleja em questão, na qual o rubro-negro da Boa Terra devorou o rubro-negro carioca lá, no relvado do Maior do Mundo, reconheço os informais modos de tratamento da Terra de Todos os Santos. “Senta, fila da puuuta, que eu quero ver minha porra invadindo” e “tira o chifre da frente do telão, seu sacana” são pequenos exemplos em que os degradantes vocativos passam sem que ninguém se aborreça.
Após quase um ano respirando ares europeizados, um homem sabe que está em casa, no caso, a Bahia, quando telefona para o ex-chefe à procura de uma recolocação no mercado de trabalho e, antes de um “alô” do outro lado da linha, ouve um “cadê você, seu Zé Buceta? Não vai vir trabalhar não é?” Já no clima ameno, digo que estarei lá no dia seguinte e questiono sobre a necessidade de levar alguma coisa para me apresentar ou, ao contrário, chegar somente com a cara de paisagem. “Trazer o quê, seu viiiiado? Eu quero é você aqui amanhã de manhã que eu vou te apresentar a sua nova chefe e ela vai botar logo pra fuder em cima de você!”.
Com isso tudo, lembrei de um amigo chamado Sérgio, companheiro de umas dessas redações por onde já passei. Goiano, descendente de japoneses, criado sob o manto da tradicional cultura oriental, Japa, como eu gostava de chamá-lo, não se conformava com a forma como amigos e colegas baianos dirigiam-se uns aos outros. “Não é possível. Se você chama alguém de veado, de corno, de filho da puta, isso é uma ofensa. Você está ferindo a honra da pessoa”, dizia ele com fala pausada.
No rastro, os mais afoitos da redação mobilizavam-se para tentar explicar: “Não, Japa, não tem ferir honra certa. Aqui é assim mesmo, todo mundo é viiiado, corno, fila da puta. É carinhoso, Serjão, ninguém vai brigar por causa disso”. Na altura, o melhor argumento que arranjei foi: “Se você está jogando bola, não existe dizer ao cara “Meu querido, toque a bola, por favor!”. É muito mais eficaz berrar um “Ô, seu viiado, toque essa caceta dessa bola. Vai levar pra casa é? Enfia logo na bunda!”. Assim, o time joga por música e as amizades continuam”. E isso também funciona quando você precisa fechar uma matéria e seu colega está enrolando com dados importantes”, ponderei.
Mais recentemente, vivendo em Portugal, tive um camarada chamado Paul. Um belo dia caí na asneira de me referir ao gringo como “o sacana do alemão”. Foi um problema encontrar metáforas que explicassem o uso da palavra “sacana” como um vocativo de afeição, e que não necessariamente ele tinha feito alguma sacanagem comigo. Paul entendeu e, com disciplina germânica, agora até assina as mensagens que me manda como “O Sacana”, para não perder o uso do novo vocábulo recém-inserido ao seu ainda vacilante português.
Na verdade, na verdade, na verdade, após quase um ano respirando ares europeizados, um homem sabe que está em casa, no caso, a Bahia, quando chega na fila de embarque do vôo que sairia da Cidade do Porto, em Portugal, para Salvador. Ali, um rapaz pede carinhosamente à namorada: “Ô, mainha, pegue um copo d’água ali pa mim, vá, na moral!”. Dentro da aeronave, outro casal senta perto de mim e lá pras tantas, ouço o moço comentar com um amigo: “Ooolhe, paaai, a aeromoça não quis servir mais vinho à Carol porque achou ela com cara de maluca!”. A namorada não gosta muito da brincadeira, mas ele faz umas graças e os dois se beijam. Já em solo baiano, no túnel de saída do avião, o rapaz adianta o passo e Carol, atrás de mim, suplica: “Você não pode andar mais devagar, não?”. “E você não pode andar mais rápido, não?”, rebate ele. Antes que a mulher comece a reclamar, o rapaz vira pra frente e segue seu rumo, agora com uma passada mais solta, ritmada. Por fim, ouço-o cantarolar no compasso do pagode: “Ela é problemática! Ela é pro-ble-má-ti-ca!”. Mas eles se amam. Ah, se se amam!