Sem sombras ou tato
Anunciava-se o natal de 2007 e minha coroa pediu que eu escrevesse algo sobre “agradecimento”, para que ela enviasse aos amigos no seu cartão de felicitações. Derrapando, escrevi. E já o fiz sabendo que teria que voltar ao tema para a Trezena de Santo Antônio 2008. “Uma versão estendida”, dizia Dona Nanci.
Inicio o presente texto com tal explicação somente para confessar que desde janeiro procuro palavras para a versão “plus” do “agradecimento”. Necas! É muito difícil escrever sobre algo que não se pode ver ou cheirar. É como o Aureliano de García Márquez, que antes de virar um coronel de guerrilha na luta pela causa liberal, não entendia como os seres humanos chegam a fazer uma guerra por coisas que não se pode tocar com as mãos.
Dia desses, perambulando por estreitas vielas portuguesas, vi uma senhora oferecendo um pão a um pedinte. Ele mordeu e mal a mulher deu as costas, cuspiu. Foi sua forma de agradecer.
Por outro lado, há alguns meses, topei com crianças marroquinas no meio do deserto do Saara. Todas muito sujas, uma pena. Eufóricas, querem qualquer coisa dos visitantes. O máximo que pude fazer foi tirar fotos. “Shukran”, em árabe, quer dizer “obrigado”. Não ouvi isso das crianças, mas o olhar agradeceu por elas.
Aprendi com Dona Nanci a agradecer, mesmo que em pensamento, pela sorte de encontrar seres humanos exemplares nas minhas trilhas. De que valem as vitórias sem alguém para compartilhar cada conquista? Mesmo que a troca seja só com um sorriso. Mesmo que ninguém veja aquele sorriso.
Aprendi que estamos todos protegidos por uma energia qualquer que paira por aí. Agradeço a proteção. Aprendi a sonhar e pisar com firmeza. A falar alto e calar muito. Todos agradecem por um pouco de silêncio. Aprendi a tatear paredes e andar no mundo. Apreendi o mundo. Agradeço por tudo isso. Ainda há muito que aprender. Talvez haja mais a agradecer. Não sei.
Só sei que vivo num mundo cheio de guerras feitas por causas que não se pode tocar com as mãos. No meio de uma dessas guerras, um personagem de Mia Couto, velho, conta ter vivido num tempo em que o amor era uma coisa perigosa. “Tu”, diz o mesmo velho a um jovem, “vives num tempo em que o amor é uma coisa estúpida.”. Admito minha estupidez. Agradeço pelo amor.
E sigo assim, pra ver o que acontece. Como o feijão de Ogum e caminho agradecendo a Santo Antonio pela caminhada, na espera de algum dia encontrar forma melhor de falar sobre coisas que não se pode ver ou cheirar. Por enquanto, ainda prefiro as palavras do natal passado:
Alguns agradecem por cifras contabilizadas
Outros agradecem por prêmios recebidos
Há os que agradecem por notas conferidas
E os que o fazem por prendas ofertadas
Muitos nunca agradeceram
Outros tantos agradecem demais
Existem aqueles que só usam sorrisos
Existem também os que redigem tratados
Agradecer pelo alimento é previsível
Pela paz é necessário
Pescadores agradecem pelo céu límpido
Sertanejos pela chuva exata
E tem os que agradecem por oportunidades
Intocáveis e invisíveis
Que não têm cheiro ou sabor
Guardadas numa caixa imaginária
Transmutadas em vitórias alcançadas
Isso é que todos merecem
Ao fim
Todos agradecem