Por Victor Uchôa, em 31.05.2008, de Lisboa/Portugal
A tarde em Lisboa é nublada. O sol da primavera lusitana não consegue mostrar sua força. Prevalece o vento do Tejo, sempre cortante. Após uma semana de tempestades em todas as regiões de Portugal, os organizadores do Rock in Rio não contam com o tempo desejado, mas já agradecem por uma trégua. A chuva parece não ter a intenção de chegar.
O clima muda quando Ivete Sangalo entra no palco principal. Sem rodeios, a baiana executa canção após canção. O público não consegue se manter imparcial à presença de Ivete. E a fusão do Samba-reggae com o frevo agalopado, alquimia da Bahia, batizada Axé Music, prova mais uma vez, agora no além-mar, que tem potência para pegar na multidão.
Ivete não pára um só minuto. Toca guitarra, acompanha os bailarinos enquanto canta, desce do palco e corre em meio à platéia. Perder o tom nem pensar, ainda mais com o suporte da sua excelente banda, que apresenta ao mundo a percussão marcante dos terreiros de candomblé em perfeita sintonia com os agudos dos metais. Tudo isso arquitetado pelo maestro Letieres, que sabe (muito bem) o que faz – a Rumpilezz Orkestra está aí pra não me deixar mentir.
E eu, que nunca fui fã fervoroso do tal Axé, porém nascido e bem crescido na Boa Terra, entro fácil no embalo de Ivete Sangalo. Todos entram. No meio do público, um australiano com cara de caçador de crocodilos – cavanhaque, colete cargo e chapéu safári – não entendia patavinas do show, mas admitiu: “A energia dela é fantástica”. E as 90 mil pessoas presentes se rendem à energia do carnaval de Salvador.
A noite cai sobre o Tejo e com muito atraso, já sob as vaias dos mais impacientes, chega ao palco a maior atração do evento para grande parte do público: Amy Winehouse, única britânica da história a arrebatar cinco Grammys em uma só noite, na última edição da premiação.
O álbum contemplado, Back to Black, merece todas as honras. Recheado com o que o mercado estadunidense chama, genericamente, de rhythm and blues, conta com pitadas exatas de reggae, funk e soul. Sem falar da voz de Winehouse: variação tonal para preencher qualquer vazio.
Antes de mais é preciso dizer que até o dia do show ninguém em Portugal sabia se a cantora apareceria. Tomada pelas drogas e constantemente envolvida com agressões físicas, presa vez ou outra, a presença da inglesa no Rock in Rio era uma incógnita. Mas ela apareceu. E aí, no palco…Bem, no palco…Em um estado de embriaguez que impedia a realização de mínimas ações, como colocar o microfone no pedestal, Amy Winehouse deixa sua Big Band visivelmente desconcertada. Instrumentistas e backing vocals, todos de primeira linha, levam o show nas costas. Um dos cantores chega a assumir a voz principal em diversos momentos. A banda, infelizmente, não tem nem espaço pra mostrar todo o potencial, porque a cantora não consegue acompanhar.
Rouca, praticamente afônica, Winehouse é quase inaudível. Magra, aparentemente doente e visivelmente entorpecida, cambaleia frente ao público. “Deprimente” foi a palavra que mais se ouviu na platéia durante sua apresentação. Até as meninas fantasiadas de Amy, com óculos escuros sem mais tamanho ultrapassando os limites do rosto e penteados verticalizados, não conseguem esconder a decepção. Tímidos coros chegam a pedir a volta de Ivete, ou a entrada da atração seguinte, Lenny Kravitz (um espetáculo a parte, o qual não tenho linhas ou potencial suficientes pra descrever). E após 50 minutos, Amy Winehouse deixa o palco, melancólica.
No dia seguinte, um jornal português estampa: “Kravitz e Ivete ofuscam Winehouse na 1ª noite do Rock in Rio Lisboa.”. Roberta Medina, vice-presidente do Rock in Rio, em entrevista ao site oficial do evento, é sincera: “Ivete botou todo mundo pro alto. Já Amy estava…o que eu desejo do fundo do coração é que a emoção do público desperte nela outra posição. Porque é um talento incrível, sua banda é incrível, grandes músicos, mas ela de fato estava “um pouco” prejudicada.”.
A questão aqui não é comparar as duas cantoras. São vozes diferentes. São conceitos musicais diferentes. A questão é ver como cada uma trabalha sua imagem e vende seu produto, a voz. Ivete Sangalo e Amy Winehouse são artistas de milhões de dólares, mas enquanto a primeira dá passos cada vez mais largos na carreira, a segunda talvez nem tenha tanto tempo mais de vida. Pobremente parafraseando, Ivete segue abalando com sua mistura de tambor, violino e agogô que não deixa ninguém parado. Na única tentativa de entrar no ritmo da banda, Winehouse arrisca uns passos de reggae e cai no palco do Rock in Rio Lisboa.
É por causa de exemplos como este que eu olho o Tejo e com a brisa no rosto me raciocino todo. Talvez seja exagero, talvez não, mas cá com meus botões, ouso dizer que nessa toada, o tal Axé, alquimia da Bahia, ainda vai dominar o mundo.
Vitor,
dominar, eu não sei. Mas, exterminar, não há dúvida. Ouça.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u407692.shtml