Por Victor Uchôa, em 07.05.2008, de Braga/Portugal
A realidade é espinhosa. Longe, um Atlântico de distância, não aplaudi in loco mais um título do Leão da Barra, rei do Santuário Ecológico Parque Sócio-ambiental de Canabrava, região bucólica da cidade da Bahia. Lá, e somente lá, a verde relva do Estádio Manoel Barradas já acolheu bailarinos da bola do quilate de Junior Touché, Elói, Dão (“não tem perdão, é bola no cordão”) e o inesquecível Renato Martins.
A realidade é espinhosa. Longe, um Atlântico de distância, preferi não comentar a mais recente conquista tomado pelo furor da (o) Vitória. Esperei que a poeira baixasse e que as taças de Porto deixassem meu corpo. Agora, detentor de todas as faculdades mentais e das notícias que inundaram as ruas de Salvador desde o finado domingo, calejo os dedos com algumas palavras.
Noves fora o fato de o título vir na última partida, pelo critério de gols marcados, torcer à distância é algo que eu só desejaria ao pior dos meus inimigos. Mais devastador do que isso, só torcer à distância dependendo da Igreja Universal do Reino de Deus. E explico.
Em Portugal, na residência universitária aonde vim parar, temos acesso à tal Record Internacional, emissora que transmite o único torneio do mundo que pode ser comparado à Premier League inglesa em termos de qualidade técnica e infra-estrutura de estádios. Não hesite. Como já disse, a alternativa é única. Estou falando mesmo do brilhante Campeonato Baiano de Futebol.
Pois (sussuram os portugas com alguns ovos na boca), a TV do bispo leva o Baianão à lares nas províncias mais distantes do planeta, com um porém: a transmissão tem 30 minutos de defasagem. Ou seja, o otário aqui tem que ficar ligado no computador pra saber, ao vivo, o que de fato ocorre no certame da Boa Terra. Depois, corre pra frente da televisão pra ver cenas já construídas no plano das idéias. É uma espécie de Deja Vu pós-moderno que só a Record pode proporcionar aos crentes.
E a respeito da transmissão, paro por aqui. A preguiça impede que eu descreva todos os (vis) sentimentos que brotam no fundo da alma quando ouço os comentários do possível, e que os orixás nos protejam desse mal, futuro prefeito de Salvador, Raimundo Varela.
Quanto aos adversários, que valorizaram o título rubro-negro ao, enfim, disputarem até a última rodada, cada um que cuide das suas dores da forma mais conveniente. Eles vão dizer que o regulamento foi injusto. Vão dizer que o ex-time deles fez a melhor campanha. Vão dizer que ganharam três dos quatro clássicos do ano. Vão dizer até que os resultados foram arranjados. Que digam. Há anos eles choram, inundam as ruas e causam engarrafamentos, sem qualquer resultado.
Com certeza eles não vão comentar as imagens captadas pela ESPN Brasil (é claro que as poderosas e imparciais TV`s locais não têm, ou não veicularam tais imagens), onde torcedores do ex-quadrão de aço pedem que o elenco entregue o jogo contra o Vitória da Conquista, dado que com o resultado do Esporte Clube Vitória diante do Itabuna, naquele momento, o título estava muito longe da prateleira deles.
Fomos campeões através do número de gols marcados? Fomos. Esse era o regulamento. O que sei é que, de longe, com minhas taças de vinho barato, lutando contra as bem-feitorias da Record e, como sempre, roendo as unhas que já nem existem, eu ri por último. E não foi porque não entendi a piada.