Por Victor Uchôa, de Braga/Portugal, em 17.11.2007
Na fria madrugada do outono português, o vento se faz ouvir. Carrega as folhas caídas, secas. Com ritmo intenso, dá vida ao que era morto, e as folhas flutuam ensaiadas, compassadas, tocando o chão em seguida e emitindo cortante som. É o balé das folhas. Esse era o cenário em 14 de novembro de 2007. No Brasil, ainda dia 13, outro balé merecia aplausos.
No Estádio Manoel Barradas, em Salvador, o Esporte Clube Vitória dançava o balé da bola, de ritmo acelerado, agora ca den ci a do, voltaaacelerar e pára. Cumprimenta o público. A arquibancada vestida de vermelho e preto vê seu time do coração garantindo o retorno à série A do Campeonato Brasileiro. Na fria madrugada do outono português, trancado num quarto de residência universitária, maldizendo a conexão da internet que cortava a transmissão do jogo a cada instante, roendo unhas que já não existem, com uma taça cheia de vinho barato em punho, este que escreve sentia o drama de torcer à distância. A vida gosta mesmo de pregar peças.
Eu, que desde menino vibro nas arquibancadas do Barradão, lá não estava naquele dia 13. Não estava porque me movi no mundo, e agora, vivendo em Portugal, tenho a plena certeza de que o futebol, apesar das várias formas de entretenimento apresentadas pela contemporaneidade, é o que move o mundo.
Viver como estudante em outro país é fazer parte de uma comunidade multifacetada, da qual cada integrante saiu de um lugar diferente do globo. Nessa situação, o único assunto que consegue alcançar a todos, é o futebol. Isso porque, como bem diz Eduardo Galeano, esse esporte é a única religião que não tem ateus. Qualquer um pode assistir às partidas no conforto do seu lar, sentado em frente à televisão, mas uma energia inexplicável move o torcedor para o estádio, para a missa pagã em que se pode ver as divindades em carne e osso. No gol, abraça-se o desconhecido ao lado. É um carnaval a cada jogo, é onde se pode esquecer do trabalho frustrado e do amor sem tesão.
Irene é uma italiana que obriga os brasileiros a assistirem as partidas da sua seleção. Quando a Azzurra marca, vibra sozinha, lançando-se no ar como as folhas do outono, sem se preocupar com os olhares em volta. O alemão Paul é fanático pelo Werder Bremen e acha Diego (ex-Santos) um jogador fora de série. Discordamos neste ponto, mas cada um pensa o que quiser. Fato é que o Bayern Munique vem jogar em Braga, cidade onde vivo, e mesmo sendo um rival do seu clube do peito, Paul vai assistir a partida. É um clube alemão, diz ele, tem que ser visto. Victor é mineiro, mas não fica quieto quando o Cruzeiro joga. Estende a bandeira azul no corredor da residência e deixa a rádio on-line no mais alto volume. Gol do cruzeiro e quase estouram as caixas de som. Se o “Estrelado” perde, melhor não chegar perto. Convidado para assistir Benfica e Milan em Lisboa, arrematou: “O problema não é gastar 40 euros no ingresso. O problema é que isso paga quase o Campeonato Mineiro todo”. Para jogar bola em Portugal, Rafael comprou um tênis vermelho e azul, as cores do Clube Náutico Marcílio Dias. “Hoje eu tenho que comemorar porque o Marcílio ganhou o primeiro turno da Copa Santa Catarina, vencendo o Figueirense B no Gigantão das Avenidas”, disse ele há alguns dias. O Gigantão comporta 12 mil pessoas. Recentemente, após o Liverpool aplicar a histórica goleada de 8 a 0 sobre o Besiktas, pela UEFA Champions, o turco Aytekin parecia ter perdido um ente querido. Em breve, o Besiktas virá enfrentar o Porto. Apesar de o seu time ter remotas chances de classificação e o ingresso custar um considerável punhado de euros, Aytekin vai ao estádio.
Exemplos assim são provas de que para o torcedor de futebol, o que mais vale não é ganhar ou perder. O que vale é o lúdico, a criação de espaço e tempo imaginários, onde há a eterna possibilidade de vitória. E de fazer parte da conquista. Ninguém diz que torce para esse ou aquele time. Diz-se eu sou Vitória, sou rubro-negro e sou 1ª divisão. Ou eu sou Cruzeiro, ou sou Besiktas. Nós ganhamos o jogo, e não o time. O juiz rouba a todos nós. Aborrece menos o adversário gozador do que o sem-graça que diz não entender porque tanto descontrole diante de um simples jogo. Na missa pagã, vale tudo, menos acabar com a ilusão do jogo.
Li em algum lugar que o futebol se parece muito com Deus, devido à devoção que desperta nos crentes e à desconfiança com que lhe vêem muitos intelectuais. Chamam-no de ópio dos povos. Para os crentes, penso que inebria mesmo como uma droga. E se Deus realmente criou o mundo, nada melhor do algo parecido com Ele para mover sua criação. Além do mais, dizem que após seis dias de árduo trabalho para criar tudo que existe, Deus sentou pra descansar. Era sábado. Sentou pra ver futebol.
*Texto publicado na Revista Metrópole, em novembro de 2007
[...] para um texto da minha série (que pretensão) O que move o mundo, que já apareceu aqui, ali e acolá. Mas a verdade é que no momento, não há a menor chance de eu parar para escrever algo [...]