Um toque no ombro e um “it`s a nice t-shirt. Bob is king” introduziu o assunto. O alemão de cavanhaque mal aparado, 1,80m, cabelo desgrenhado e voz rasgada veio até mim no meio de uma festa no centro de Braga, em Portugal, simplesmente porque eu usava uma camisa com a estampa de Bob Marley, o rei do reggae, único estilo musical criado num país subdesenvolvido a agrupar fãs em todo o planeta.O alemão de nome Paul, ou qualquer coisa parecida com isso, perguntou se eu falava inglês, e antes mesmo de ouvir qualquer resposta desenbestou a expor idéias sobre Marley, sobre a Jamaica, país que ele conheceu há dois anos atrás, sobre a desigualdade de direitos dos seres humanos e sobre o seu desprazer em estudar Ciências Políticas na Alemanha, o que o fez partir pra Portugal.
Da exposição do branquelo, absorvi no máximo 60%, provavelmente ele absorveu menos ainda do meu medíocre inglês, mas até que conseguimos estabelecer uma conexão e o fato é que ouvi algo interessante, o que me motivou a digitar as presentes mal traçadas a partir deste dispensável intróito.
De antemão, eu e o rapaz da terra de Goethe chegamos a um consenso de que é inexplicável o fato de Bob Marley ter desenvolvido sensos poético e crítico social tão aguçados e, contraditoriamente, ter adorado Selassié, imperador etíope que é divindade para uns e genocida para outros.
A relativa decepção de Paul com Bob explica-se pelo fato de que ele tem grande admiração pelo povo do continente africano. O prazer ficou nítido em seus olhos quando eu disse que nasci em Salvador, explicando-lhe que naquela cidade vive a maior quantidade de negros no mundo, fora da África. Então o rapaz voltou a falar sobre o homem que cantou a igualdade e a paz, chegando a citar um trecho da bela canção War: “Until the color of a man’s skin is of no more significance than the color of his eyes, everywhere is war”.
Com isso, o gringo começou a apontar as pessoas em volta. Era uma festa de intercambistas, com gente do mundo inteiro, das mais diferentes etnias, todas reunidas no mesmo espaço e dividindo a mesma experiência. Questionou a falta de negros no extenso grupo de brasileiros presentes na festa, colocando que o único “negro” era este que escreve, deixando-me na obrigação de dizer que apesar de serem muitos, os negros no Brasil, historicamente, não têm as mesmas oportunidades dos “brancos”. Por fim, disparou algo parecido com: “não importa se alguém é branco, negro, amarelo, rosa, isso tudo é pele. O que há por baixo?” Eu acenei com a cabeça e respondi calado, mas ele externou: “Sangue. E o de todo mundo é igual, é vermelho.”
Pois agora chego ao fim do texto sem acrescentar nada de extraordinário, e talvez poucos tenham me acompanhado até aqui. É que o algo interessante citado na dispensável introdução veio apenas na conclusão do diálogo, quando Paul, meio bêbado e meio emocionado, disse, entre uma coisa e outra, que sua avó esteve presa num campo de concentração nazista por quase seis meses. Ele mencionou o nome, mas eu precisaria morar na Alemanha pelo menos seis anos para compreendê-lo. Dos tais campos, lembro que somente no de Auschwitz, na Polônia, mais de 1 milhão de pessoas foram assassinadas, o que segue completamente na contramão do que cantou Bob Marley e do que defende Paul. Pois esse cara alto, falante, risonho, vindo diretamente da Alemanha, é quem bem sabe que por baixo, em todos nós, há sangue.
Vitinho,
Quem mandou botar um blog? Agora, tens que trabalhar, cara-pálida. Não tome Franciel como exemplo e poste, pelo menos, um novo artigo a cada dois dias. Já tem cinco dias que está essa mesma coisa nesse blog. Que preguiça é essa, rapá? Parece até que vc já está prá lá de Marrakesh.
Um abraço