O céu ainda pertence às estrelas. Em pouco tempo, o sol começa a espreitar do horizonte. Daí, o ambiente será tomado por manchas alaranjadas e marrons. São frutos da fusão de impiedosos raios de sol e da poeira que o vento da manhã suspende no ar. Porém, nada disso já aconteceu. Por enquanto, o céu ainda pertence às estrelas.
Mas Mustafá já está desperto. Antes que o sol saia ele deve realizar o ritual do Sobh, primeira das cinco orações que os muçulmanos fazem durante o dia, ajoelhados, virados pra Meca.
Mustafá leva o Islamismo a sério. Transmite com orgulho as idéias do Alcorão e afirma que as palavras de Maomé são definitivas e imutáveis. “Somos todos iguais. Foi o profeta quem disse. Não importa sua cor, sua origem ou se você tem dinheiro. Somos irmãos, e não fazemos mal aos nossos irmãos”, diz ele durante uma conversa com brasileiros.
E aqueles que dizem matar em nome de Alá? “Eles não são muçulmanos verdadeiros. Eu sei que a forma como as notícias são transmitidas mancham a nossa imagem. Mas quem mata inocentes não sabe o que é o Islã. Não devemos causar dor aos irmãos”, enfatiza Mustafá, homem magro, cujas expressões do rosto tem uma força que reveste de confiança a sua fala.
Sobre seu casamento, Mustafá conta que conhecia há algum tempo o pai da esposa, sendo mais fácil a “negociação” para ficar com aquela mulher. “É assim, nós escolhemos nossas esposas e acertamos tudo com o pai delas. O amor nasce depois, com o tempo”, explica. Eu não queria polemizar, mas o impulso foi mais forte: “Não é contraditório você dizer que todas as pessoas são iguais e depois afirmar que as mulheres muçulmanas não têm o direito de escolher o marido?”. Talvez sem perceber, Mustafá muda completamente cada marca de sua face e, misturando de maneira não linear o francês, o árabe e o inglês, só consegue dizer que isso é coerente porque os homens são mais fortes do que as mulheres. Vai entender.
Como Mustafá, se diz muçulmano o dono de um bar dentro da Medina de Fès, que se apresenta como o Snoop Dog marroquino. Nas medinas, parte histórica das cidades árabes, cercada por muros, não é permitido o consumo de álcool. Mas Snoop Dog oferece cerveja aos viajantes. E bota Bob Marley pra embalar a conversa. De súbito, a música cessa. A atitude é em respeito ao Al Maghreb, quarta oração do dia, realizada no fim da tarde. Mas, ao menos para Snoop Dog, parar a música já é respeito suficiente. Enquanto só se ouve o som dos alto-falantes que, espalhados pela rua, lançam uma enxurrada de palavras do Alcorão aos quatro ventos no momento de cada oração, o dono do bar oferece haxixe aos viajantes. Vai entender.
Difícil também de entender a atitude de um vendedor de produtos artesanais em uma vila próxima ao deserto do Saara, que se apresenta como muçulmano e que, em tese, não deveria querer prejudicar “os iguais”.
Inicialmente, bastante solícito, mostra belíssimos punhais árabes. Então explica que as lâminas são feitas de forma que, próximo ao cabo, tenham uma espessura maior. Se por algum motivo, um árabe tiver que matar um amigo, ele enfia somente a parte uniforme do punhal. Se for matar um inimigo, enfia tudo, incluindo a parte de maior espessura.
Após a didática explicação, o homem tenta cobrar 1200 dirhans por tapetes que, depois se descobriu, não custam 400. É óbvio que ele ficou falando sozinho com seus tapetes, mas do jeito que queira “enfiar a faca”, provavelmente me achou com cara de inimigo.
No entanto, o mais incrível é que, no fim das contas, vale a pena passar por tudo isso. Vejo como uma aventura antropológica. Vale até acordar assustado no meio da madrugada com os alto-falantes anunciando a Sobh. É nessa hora que se tem a certeza de que independente das atitudes dos homens, da sua fé e do que eles acreditem, o céu pertence somente às estrelas.
Contradições da religião (cristã, muçulmana, e afins) no mundo capitalista:
Somos todos iguais perante a deus.
Mas o seu salário, é o luxo meu.
Mais-valia ser mais rico, não me importa o bolso teu,
Trabalhe mais, faça perfeito, e ao fim do dia,
quando o céu for das estrelas, abaixe a cabeça,
enxugue as lágrimas e agradeça tudo que deus lhe deu.
Chego através da indicação de uma colega.
Gostei muito dos seus textos.
Só acharia interessante, mais especificamente nesse último, que se tivesse uma abrangência maior, pois dito dessa maneira está apenas reforçando o preconceito tão difuso na nossa cultura ocidental.
É também interessante refletir até que ponto cultura é cultura? E se não existe na nossa cultura algo aparentemente contraditório, ou até inadimissível para outras nações?
Até que ponto o nosso bom senso é apenas idílico diante da realidade? Há realmente um verdadeiro bom senso?
Concordo com tudo que foi trazido por você sobre os marroquinos. Sei que você está vivendo de perto isso.
Mas será que isso é exclusivo deles?
Não é preciso ir longe para presenciar essas incoerências.
Basta que duas sociedades culturamente distintas dialogem para logo aflorar tais intransigências.
Certamente. Acho que ficou mais claro a sua intenção.
As vezes, na minha ânsia de metodismos, extravazo quanto a verdadeira intencionalidade de cada texto em particular.
Erroneamente confundi um trabalho lírico com algo dissertativo.
Mas acredito que compartilhemos, ainda assim, da mesma visão crítica.
A amiga que me indicou foi Camila Félix, uma colega de colégio.
Espero ler mais obras suas no futuro próximo,
Abraços.
Vitor,
já derrubei o técnico do Leão. Agora, quero a minha parte em substâncias não permitdas pela Carta Magna que o menino Snoop Dog vende aí. Beleza?