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Victor Uchôa

Sou Vitória. Incontestavelmente Vitória. De berço. Vitória dos que já largaram o fechamento de um jornal no meio para ir ver o Rubro-Negro jogar (e ao contrário do que muitos poderiam pensar, me orgulho disso). Sim, sou Vitória. E defenderei até onde for possível a existência do Esporte Clube Bahia.

Aos que pensam em contrário, sugiro uma olhada nas mal-traçadas de Eduardo Galeano, que em Futebol ao Sol e à Sombra, lançou ao vento as seguintes palavras: “Como todos os meninos uruguaios, eu também quis ser jogador. Jogava muito bem, mas só de noite, enquanto dormia: de dia era o pior perna-de-pau dos campos de meu país. Como torcedor, também deixava muito a desejar. Alberto Schiaffino jogava no Peñarol, o time inimigo. Como bom torcedor do Nacional, eu fazia o possível para odiá-lo. Mas Schiaffino, magistral, armava o jogo do seu time como se estivesse do alto da torre mais alta do estádio, vendo o campo inteiro. Eu não tinha saída a não ser admirá-lo. Os anos passaram e com o tempo acabei assumindo minha identidade: não passo de um mendigo do bom futebol”.

O que pretendo mostrar com a citação de Galeano é que todos nós, torcedores que se dedicam às suas bandeiras, que esquecem os compromissos para ver o time em campo, que sentem o peito apertado na tormenta de uma derrota, não passamos, em último grau, de mendigos do bom futebol. Agora questiono: para nós, o “bom futebol” do Vitória não é o “melhor futebol” do Vitória quando é jogado contra o Bahia? Os títulos não são mais saborosos quando são conquistados em cima do Bahia? São sim.

Aos 23 anos, não sou mais experiente dos torcedores, mas, nos estádios desde o cinco, sou de um tempo em que tricolores e rubro-negros subiam a Ladeira das Pedras rumo à Fonte Nova lado a lado, formando um mosaico só possível quando todos sabem que um triunfo naquele domingo será mais saboroso do que em qualquer outro. E não interessava o resultado do jogo, Vitória e Bahia iam para a Lapa juntos. Hoje, levantam a possibilidade de clássicos só com a torcida do mandante e, o cúmulo, tem gente que quer o fim do Bahia. Há o argumento de que podem surgir novas forças. Já deveriam ter surgido. Por que não aconteceu? Porque o Bahia está fraco, logo, o Vitória não está tão forte quanto poderia (ou deveria) estar. Quem vai apostar numa praça esportiva como essa? O Flu de Feira não sabe nem se terá condições ($) de disputar a Série D.

O Bahia tem sua história: glórias, títulos, a conquista nacional, a superioridade numérica em torneios estaduais. Falam da influência política de outrora. E daí? Tudo aquilo está com eles. Temos que mirar isto para alcançar glórias semelhantes, para engrandecer a nossa história, já cheia de belos capítulos, como o pioneirismo profissional e a brava resistência política, além de uma contemporaneidade amplamente vencedora.

Felizmente, já tive a oportunidade de acompanhar in loco grandes embates do futebol mundial. Manchester X Arsenal em Old Trafford, Inter X Milan em San Siro (ou Giuseppe Meazza), Benfica X Porto na Luz. Com alguma pretensão, posso garantir: nenhum deles quer o fim do rival. Eles se completam na vitória, na derrota e, creiam, na gozação saudável do dia seguinte, coisas que não conseguem conceber os arruaceiros que se dizem “torcedores organizados”.

Momento sublime: junho de 2008, Viena (Áustria), final da Eurocopa, Alemanha contra a Espanha. Duas nações diferentes, duas escolas futebolísticas diferentes, de um lado a tradição incontestável, do outro o talento jamais comprovado, o título mais importante do continente em disputa e nas ruas…todos juntos. Bebendo juntos, cantando juntos, torcendo juntos. Ninguém me contou. Eu vi. Como vi um alemão aplaudir o gol de Fernando Torres que deu a taça aos espanhóis.

Não peço aqui que ninguém aplauda belas jogadas ou talentosos atletas do Bahia – até porque esta equipe não possui no momento. Só penso que o amor de Galeano pelo Nacional, aquele lá do início, cresce quando o seu clube de coração consegue superar o Peñarol, mesmo com o craque da época estando no fronte oposto. Surge, num momento único, a tradução literal do futebol: o jogo coletivo, o Football Association presente no nome daquela entidade que todo dia tenta acabar com a graça da maior invenção do homem. “Eles” podem ter o astro, “nós” temos o time.

Quando cada jogador rubro-negro entra em campo, somos nós que pisamos nos gramados, num corte temporal para o sonho de infância. E por mais que eu sonhasse, o adversário em quem eu marcava o gol nunca foi outro. Era sempre o Bahia. Na saída do goleiro, eu cutucava para as redes da meta do Dique e corria para esquerda, berrando loucamente, mandando calar a parte tricolor da arquibancada.

Pela eterna preservação de meu sonho, eu quero um Bahia forte, para derrubá-lo assim mesmo, até quando eu estiver nas cordas, combalido, como no último domingo, e ressurgir vencedor tal qual Antonio Balduino contra Ergin, o alemão “campeão da Europa Central”.

Por Victor Uchôa, em 04.05.2009
Se eu tivesse cancha para escrever um texto com qualidade, com certeza não começaria uma pretensa ode ao Vitória citando Armando Nogueira, que, genial, desvendou com palavras a emoção que o (então) glorioso Botafogo lhe proporcionou um dia: “O futebol é assim: desperta na pessoa um sentimento virtuoso que transcende a amizade, que vai além do amor e culmina no santo desvario da paixão. Tem de tudo um pouco, porém, é mais que tudo. Torcer para uma camisa é plena entrega. É mais que ser mãe, porque não desdobra fibra por fibra o coração. Destroça-o de uma vez no desespero de uma derrota. Em compensação, remoça-o no delírio de uma vitória.”
Desvairados pela paixão, rubro-negros chegam à decisão de mais um Campeonato Baiano. Chegam sem dar bola para o nível técnico da competição. Chegam apostando na saudade de um brilhantismo que, ao menos este ano, nunca foi, e na possibilidade de um dia seguinte com o corpo estampado pelo manto ao qual se entregam em plenitude.
Em sua definição, Nogueira só erra ao dizer que o futebol não desdobra fibra por fibra o coração. Desdobra sim. Uma a uma. E a primeira delas vai embora com a chuva em Salvador. No campo pesado, como prevalecer a articulação de Apodi, Bida e Jackson, o mais perto da poesia que o futebol baiano chegou em 2009? Naufraga a chance do imprevisível, deixando à deriva a magia de um time incisivo. Assim, as bolas versadas bóiam em um gramado encharcado. Sucumbem diante do tecnicismo que despreza a alegria de um esporte que tem de tudo um pouco, porém (e por isso mesmo), é mais que tudo.
Sobressai a prosa padronizada do Bahia e assim, sob a tempestade, nasce o gol adversário. Menos uma fibra no peito. O relógio não pára. Outras fibras se vão. Até que, no derradeiro suspiro do primeiro tempo, o tento que nos tira o título. O placar inatingível estava posto.
Sem fibras a mais para serem desdobradas, o peito se converte em um vazio sem fim. Qualquer idéia que resvale na razão se distancia da mente, entregue à tormenta dos impropérios. Na arquibancada do Barradão, surge a tantas vezes proclamada, mas nunca cumprida sentença: “Aqui, não venho mais!”
Chega a segunda etapa. À reboque, a arca que resgata os leões do dilúvio. Neto Baiano, o artilheiro jamais querido pela torcida, o matador da desconfiança, devolve a taça a seu devido lugar. Com um gol, costura o coração rubro-negro e faz brilhar o até então nebuloso sorriso. Ao sofrer o pênalti convertido por Ramon, reconstrói quase por completo um peito inundado de felicidade.
Título garantido, faltava somente um detalhe: a taça, que vai ao chão enlameado junto com os jogadores. A chuva já não incomoda mais. Chega a ser bem-vinda. Todos os sentidos estão voltados para a taça. Ela, como em 13 vezes nos últimos 16 anos, é nossa. Naquele momento, eu, que em 2008 acompanhei o bicampeonato de longe, um Atlântico de distância, senti o peito aliviado por ser completo. Somos tri. No fronte oposto, sete anos sem o deleite da mínima conquista. E assim, banhado no delírio da(o) Vitória, remoçado estava meu coração. E remoçado está, ainda que eu não consiga expressar tal sentimento com alguma qualidade.

Vide Bula

Os raros e ilustres visitantes que passam por aqui já notaram que o blog anda jogado às traças. Tenho muitas justificativas para isso, nenhuma convincente. Então, para dar vida à este cacete armado, posto apenas uma pequena resenha produzida para o  jornal que, sei lá por que, me paga, mas é sim, ele mesmo, o culpado pelo abandono do blog.

Como a resenha não foi aproveitada, vai aqui. Às traças.

Veneno Remédio

Victor Uchôa

De que forma o futebol influencia no comportamento da sociedade brasileira? Como o esporte mais popular do mundo dialoga com a nossa literatura e nosso cancioneiro popular? Há relação entre o jogo da bola e a idéia, por vezes distante, de “democracia racial”?

Estas e outras questões são o ponto de partida do ensaio Veneno Remédio, livro do professor de literatura da USP, músico e compositor José MiguelWisnik, que estudou por quatro anos o esporte inventado pelos ingleses mas que, mesmo que muitos contestem, é a cara do Brasil.

Apesar de mesclar filosofia, sociologia e crítica estética, o texto de Wisnik proporciona leitura rápida e prazerosa. É como assistir, da tribuna de honra, uma partida imaginária em que Pelé e Chico Buarque tabelam na meia-cancha. No lado oposto do gramado, Tostão finta meio time e deixa Machado de Assis na cara do gol.

O diferencial do ensaio de Wisnik está no foco. Em geral, os estudos que relacionam futebol com política, sociedade ou economia, deixam de lado a essência do jogo, que é o que faz dele uma atividade apaixonante para bilhões de pessoas no mundo todo, dos campos de terra batida até os estádios mais modernos.

No Brasil, devido a forma como o futebol está presente no cotidiano, ele é capaz de explicar

algumas de nossas forças e fraquezas mais marcantes, ajudando a ver por outro ângulo a formação da nossa identidade.

Torcedor do Santos, Wisnik cresceu batendo bola na beira do mar e percebeu ainda novo o poder mítico que o futebol exerce sobre muitas pessoas. Assim, encara o esporte como uma “linguagem”, com “discurso” e “gramática” próprios. Traz o conceito do futebol europeu como prosa, ao tempo que na América do Sul se joga com poesia, representação de inventividade e improviso, características próprias do Brasil.

Veneno Remédio vale para os que gostam e os que não gostam de futebol. Citado no livro, é Nelson Rodrigues quem define a questão: “A mais sórdida das peladas é de uma complexidade shakespeariana”.

Um raio laser

Por Victor Uchôa, em 20.08.2008

Os oito corredores estão em suas marcas na pista de Atletismo do Estádio Olímpico de Pequim. Em instantes, alguns dos homens mais velozes do mundo disputarão a final dos 200 metros rasos. Apresentados ao público, exibem olhares inibidores. Querem mostrar que são maus, que são bons.

A exceção é o jamaicano Usain Bolt, que já tem nome de raio. Ele balança o corpo, olha sua própria imagem no telão, sapateia e solta beijos. A multidão delira. Bolt já tinha vencido os 100 metros e sabia que ia vencer os 200. Todos sabiam. Por isso a final dos 200 foi emocionante. Não porque houve grande disputa pra se conhecer o grande vencedor. Mas pela forma como o grande vencedor venceu.

No dia anterior à final dos 200 metros, um repórter brasileiro disse a um colega jamaicano: “Amanhã é a grande noite!” Ouviu a singela resposta: “Engano seu, amigo. Só há grandes noites quando há competição!”. Mas a noite foi grande.

Menos de 20 segundos separaram Usain Bolt da linha de partida à linha de chegada. Alguns metros separaram Usain Bolt do seu adversário mais próximo. E a prova só tinha 200 metros. Como nos 100, ele bateu o recorde mundial. O raio, ao contrário do que muitos pensavam, caiu duas vezes no mesmo lugar. Apoteose no Ninho do Pássaro. Os jornalistas João Palomino e José Trajano, da ESPN Brasil, ambos com algumas copas do mundo e olimpíadas no currículo, definiram aquele como um dos grandes momentos da carreira.

A Globo, sempre a Globo, se deu até ao trabalho de interromper a programação para transmitir ao vivo a prova. Mal Bolt cruzou a linha de chegada, a emissora cortou para Power Rangers. Meus pêsames. Grande parte do público brasileiro perdeu a chance de ver o jamaicano sacar suas sapatilhas douradas e dançar reggae no meio do Ninho do Pássaro, idolatrado por uma platéia em êxtase.

Após a festa, Bolt declarou que quando começa a correr, seu objetivo é acabar com aquilo o mais rápido possível, pra cair logo no balanço do reggae. Ele completa 22 anos amanhã. Tem a energia da juventude e é o homem mais rápido do mundo. Encerra as entrevistas com frases de Bob Marley. É um fenômeno em essência. Um carisma diferenciado.

Muitos vão dizer, como já disseram, que Usain Bolt é marrento. E ele é. Mas o jamaicano sabe exatamente o que precisa fazer pra vencer. Alguns especialistas criticaram sua performance nos 100 metros, quando ele diminuiu o ritmo no final da prova e começou a comemorar antes de cruzar a linha, batendo no peito. Por que criticar? Talvez porque Bolt não seja estadunidense, não seja da superpotência militar que tudo pode. Ou talvez porque Bolt não seja da China, ao que parece, a nova potência esportiva, que determina à força o futuro dos seus atletas.

Com orgulho, Bolt é da Jamaica, uma ilha pobre no meio do Caribe com pouco mais de 10 mil km², de onde saiu a única música criada no setor subdesenvolvido do mundo que ganhou adeptos em todo o planeta. Os Jogos Olímpicos de Pequim formam o maior evento esportivo da história. São bilhões de pessoas com os olhos voltados para uma única cidade. A cada vitória, todos são obrigados a se curvar frente às sapatilhas douradas de Bolt. É o momento dele. Em quatro anos, é a única oportunidade que um ser humano tem de bater no peito e dizer: “Eu sou o número um. Sou o melhor. Eu sou um raio!”

Neste fantástico artigo publicado na ESPN The Magazine, o repórter Eric Adelson apresenta a programação do amerciano Michael Phelps na tentativa de atingir a marca histórica: ganhar oito medalhas de ouro numa só olímpiada.

A pressão está toda em cima do nadador estadunidense de 23 anos. E ele sabe disso:  “Once I get to the competition, it’s like…it’s like I’m in a cage, so just let me out, because I know exactly what to do. I know how to prepare myself. I know how to warm up. I know how to get my head in the game. Competition is my favorite part of the sport. That’s what I do best.”

Em nove dias, Phelps nadará mais de 40 km, entre eliminatórias e finais. Muitos especialistas acham que seu maior problema não será físico, e sim psicológico. Seu treinador tem a defesa na ponta da língua com uma frase de efeito: “When the time to perform has come, time to prepare has passed.”

Alguém duvida que Phelps pode fazer história?

Idéias para o futuro

Por Victor Uchôa, em 28.07.2008 

O sábado não decidia se ficava com o sol ou a chuva e eu não decidia se comia a sobra da sexta ou cozinhava algo novo, até minha coroa ligar e pedir que eu convidasse o filho da vizinha, Rafael, para comer conosco num restaurante na rua.

 

Quer dizer: você tem certeza absoluta que não pode confiar num jornalista quando, logo no início de um texto, ele chama de restaurante um cacete armado no meio de uma feira, onde os pratos do dia estão indicados a giz num quadro negro junto ao balcão do bar. Mas tudo bem. No fundo, no fundo, o que importa é que em locais como aquele a comida é bem mais saborosa do que em restaurantes cheios de nove horas e o preço não sobe com o petróleo ou a taxa selic. Além do mais, no cacete armado em questão, o filé mal passado é bem macio e o fígado acebolado, coerentemente, vem com muita cebola. Fecha parêntese.

 

Então estávamos lá no restaurante eu, minha coroa e Rafael, nove anos de idade, óculos de aro grosso e mais idéias na cabeça do que o que ele consegue expressar. Atualmente, sua maior ocupação é catalogar dezenas de moedas que eu lhe dei de presente após voltar de Portugal. São moedas de variados períodos dos mais diversos países, da Hungria às Filipinas, da Romênia aos Estados Unidos. Faziam parte de uma coleção que eu guardava desde a infância, sem muito zelo, é verdade, mas eu achava que conseguiria preservar e fazê-la chegar aos meus filhos. Até que voltei de Portugal e resolvi dar a Rafael e sua mãe conta que todos os dias ele pergunta sobre como poderia me agradecer. Já agradeceu.

 

Isso porque no sábado, enquanto o vendedor de DVD`s piratas apresentava suas novidades, a garçonete pergunta se queremos um aperitivo antes do almoço. “Até queria, mas não sei se posso, estou dirigindo e esse negócio de Lei Seca está um caso sério”, digo eu, ainda me adaptando à nova realidade. Minha mãe completa: “Pra mim, o maior problema de todos é ficar sem a carteira (de motorista). E estão tomando mesmo, principalmente de quem tem carteira relativamente nova.”. Rafael emenda de bate pronto: “Ainda bem que eu não trouxe a minha!”. “Como assim, Rafa?”. “Minha carteira está novinha, ganhei de presente há pouco tempo e sua mãe disse que eles estão tomando as carteiras novas”, diz ele com uma brilhante inocência.

 

O fígado chega, mas Rafael está mais preocupado com o sorteio da Mega-Sena, então acumulada em R$ 52 milhões: “O que vocês fariam se ganhassem esse dinheiro?”, questiona. Eu e minha mãe passamos algum tempo discorrendo sobre coisas sem importância, como viagens à Machu Picchu e ao Camboja ou comprar um terreno encravado no Vale do Capão, na Chapada Diamantina, antes de Rafa apresentar seus planos: “Eu aplicaria R$ 10 milhões na poupança, ficaria com R$ 40 milhões pra gastar e colocaria R$ 2 milhões no mercado de valores.”. “É o que, rapaz?”. “Mercado de valores, isso mesmo!”. “E por que somente R$ 2 milhões e não 12, já que você vai ficar com 40 pra gastar?”. “Porque se a bolsa cair eu não perco tanto dinheiro!”. E eu não tinha visto o óbvio.

 

Rafael continua contando um bom punhado de histórias, mas, por culpa do filé, não lembro de todas. Sei que após a refeição minha mãe foi resgatada por amigas que a levaram para um canto qualquer, enquanto eu e Rafa seguimos juntos pra casa. No carro, ele comia um doce comprado na feira. Provei e não gostei. Confessei a ele que o único doce que eu realmente aprecio é brigadeiro. Rafael concordou à respeito da soberania dos brigadeiros perante os outros doces. Então, muito seguro, emendei: “Festa pra mim tem que ter brigadeiro. De aniversário de criança até casamento. Se não tiver brigadeiro não é festa. Se algum dia eu for prefeito, Rafa, vou fazer uma lei pra obrigar todo mundo a botar brigadeiro nas festas que fizer!”. Mal eu terminei de formular aquele que achava ser um brilhante raciocínio, Rafael decretou: “Mas aí você acaba com o livre arbítrio das pessoas!”. E o pior (ou melhor) é que ele tem toda razão.

Por Victor Uchôa, em 21.07.2008

Após quase um ano respirando ares europeizados, um homem sabe que está em casa, no caso, a Bahia, quando senta num bar para assistir uma peleja futebolística e, mal se acomoda na cadeira, ouve retumbante: “Veeeeeenha, viaaaado. Sente aqui de meu lado, seu corno, que hoje a porra do Vitória vai brocar o Flamengo lááá, bem no Maraca”. Após a delicada convocação, olho pro lado e vejo dois amigos se abraçando com notável prazer. Afago mútuo.

 

Enquanto acompanho a peleja em questão, na qual o rubro-negro da Boa Terra devorou o rubro-negro carioca lá, no relvado do Maior do Mundo, reconheço os informais modos de tratamento da Terra de Todos os Santos. “Senta, fila da puuuta, que eu quero ver minha porra invadindo” e “tira o chifre da frente do telão, seu sacana” são pequenos exemplos em que os degradantes vocativos passam sem que ninguém se aborreça.

 

Após quase um ano respirando ares europeizados, um homem sabe que está em casa, no caso, a Bahia, quando telefona para o ex-chefe à procura de uma recolocação no mercado de trabalho e, antes de um “alô” do outro lado da linha, ouve um “cadê você, seu Zé Buceta? Não vai vir trabalhar não é?” Já no clima ameno, digo que estarei lá no dia seguinte e questiono sobre a necessidade de levar alguma coisa para me apresentar ou, ao contrário, chegar somente com a cara de paisagem. “Trazer o quê, seu viiiiado? Eu quero é você aqui amanhã de manhã que eu vou te apresentar a sua nova chefe e ela vai botar logo pra fuder em cima de você!”.

 

Com isso tudo, lembrei de um amigo chamado Sérgio, companheiro de umas dessas redações por onde já passei. Goiano, descendente de japoneses, criado sob o manto da tradicional cultura oriental, Japa, como eu gostava de chamá-lo, não se conformava com a forma como amigos e colegas baianos dirigiam-se uns aos outros. “Não é possível. Se você chama alguém de veado, de corno, de filho da puta, isso é uma ofensa. Você está ferindo a honra da pessoa”, dizia ele com fala pausada.

 

No rastro, os mais afoitos da redação mobilizavam-se para tentar explicar: “Não, Japa, não tem ferir honra certa. Aqui é assim mesmo, todo mundo é viiiado, corno, fila da puta. É carinhoso, Serjão, ninguém vai brigar por causa disso”. Na altura, o melhor argumento que arranjei foi: “Se você está jogando bola, não existe dizer ao cara “Meu querido, toque a bola, por favor!”. É muito mais eficaz berrar um “Ô, seu viiado, toque essa caceta dessa bola. Vai levar pra casa é? Enfia logo na bunda!”. Assim, o time joga por música e as amizades continuam”. E isso também funciona quando você precisa fechar uma matéria e seu colega está enrolando com dados importantes”, ponderei.

 

Mais recentemente, vivendo em Portugal, tive um camarada chamado Paul. Um belo dia caí na asneira de me referir ao gringo como “o sacana do alemão”. Foi um problema encontrar metáforas que explicassem o uso da palavra “sacana” como um vocativo de afeição, e que não necessariamente ele tinha feito alguma sacanagem comigo. Paul entendeu e, com disciplina germânica, agora até assina as mensagens que me manda como “O Sacana”, para não perder o uso do novo vocábulo recém-inserido ao seu ainda vacilante português.  

 

Na verdade, na verdade, na verdade, após quase um ano respirando ares europeizados, um homem sabe que está em casa, no caso, a Bahia, quando chega na fila de embarque do vôo que sairia da Cidade do Porto, em Portugal, para Salvador. Ali, um rapaz pede carinhosamente à namorada: “Ô, mainha, pegue um copo d’água ali pa mim, vá, na moral!”. Dentro da aeronave, outro casal senta perto de mim e lá pras tantas, ouço o moço comentar com um amigo: “Ooolhe, paaai, a aeromoça não quis servir mais vinho à Carol porque achou ela com cara de maluca!”. A namorada não gosta muito da brincadeira, mas ele faz umas graças e os dois se beijam. Já em solo baiano, no túnel de saída do avião, o rapaz adianta o passo e Carol, atrás de mim, suplica: “Você não pode andar mais devagar, não?”. “E você não pode andar mais rápido, não?”, rebate ele. Antes que a mulher comece a reclamar, o rapaz vira pra frente e segue seu rumo, agora com uma passada mais solta, ritmada. Por fim, ouço-o cantarolar no compasso do pagode: “Ela é problemática! Ela é pro-ble-má-ti-ca!”. Mas eles se amam. Ah, se se amam!

Poucas palavras

Ontem estive no que restou dos campos de concentracao de Auschwitz I e Auschwitz II – Bikernau, na Polonia.

E tem gente que diz que o Holocausto nao existiu. E o pior é que foi o ser humano que fez aquilo tudo…

O que move o mundo

Por Victor Uchoa, de Viena/Áustria, em 29.06.2008

Quando o árbitro italiano Roberto Rosseti autoriza o início da partida entre Espanha e Alemanha, 203 emissoras de TV transmitem a final da Eurocopa 2008 para 300 milhoes de pessoas ao redor do mundo. Dentro do Estádio Ernst Happel, em Viena, 40 mil previlegiados acompanham o embate de perto. Nas ruas da capital da Áustria, 100 mil viventes grudam o olho em algum telao. 70 mil somente na Fanzone, a “cidade do torcedor”.

A Alemanha entra melhor no jogo decisivo, mas logo o quadro muda. A maior qualidade técnica espanhola sobressai frente à impressionante disciplina tática germanica. Paciente, a Espanha chega aos poucos. Coloca uma bola na trave e desperdica outras oportunidades. Até que El Nino Fernando Torres, o vendaval que assombrou o futebol ingles na última temportada, ganha na velocidade do defensor alemao e, com uma cutucada de quem sabe o que faz, estremece meia Europa.

A Fanzone é inundada por cantos ibéricos e…e mais nada. Volta a fita!

O dia 29 de junho amanhece ensolarado em Viena. Durante o Campeonato Europeu de Selecoes, todos os jogos disputados aqui ocorreram debaixo de forte chuva, relatam moradores. O cenário para o jogo mais esperado do ano na Europa nao poderia ser melhor. Para a decisao, a Espanha aposta na sua talentosa geracao de jogadores e tenta afastar a fama de “amarelar” em momentos cruciais. Já os alemaes…bem, nao importa se o time tem talento ou nao. Eles sao sempre fortes.

Logo cedo as ruas de Viena sao tomadas por gritos alemaes e espanhóis. Cada grupo vibra à sua maneira. A festa dos espanhóis é, obviamente, alatinada. Alguns homens vestem-se de mulher e soltam beijos provocativos para os alemaes. Jogam bola no meio da rua. Sobem nos pontos de onibus e criam uma atmosfera talvez nunca vivenciada pela clássica Viena. Os germanicos preferem os tradicionais cantos em coro, entoados disciplinadamente, como que ensaiados. Bradam com forca. Ecoa alto.

As bandas de sopro e percussao das duas nacoes tocam juntas e todos entram na brincadeira. Inclusive quem ficou pelo caminho da competicao. Italianos, russos, suecos, croatas e tantos outros bailam felizes na festa alheia. Mulheres e criancas misturam-se com os marmanjos que deliram com a febre da bola. Velhos e jovens riem o riso de uma celebracao engendrada pelos austríacos para o mundo ver. O futebol chega a ser surreal.

É claro que nao poderia faltar o problema cronico: cambistas. Querem 500 euros por um ingresso (pausa para o riso…) – nao há polícia no mundo que controle essa peste. Por outro lado, há os quadros que valem a pena: senegaleses batem seus tambores tribais na porta da Fanzone e a branquelada vai no embalo africano. Do lado de dentro, o Brasil, porque nao pode faltar Brasil onde tem futebol. Uma bateria austríaca (eles no mínimo se esforcaram), comandada por brasileiros, bota todo mundo pra sambar (se é que algum dia, até fim dos tempos, os europeus vao aprender a sambar). E suar. Tudo pronto pro espetáculo da bola.

O ronco da cuíca silencia e entao, no ritmo dos tamborins austríacos, Fernando Torres entra como um tufao pela intermediária alema e o mundo pára pra ver. El Nino deixa o defensor pra trás, ve o goleiro crescendo em sua frente e encosta o bico da chuteira por baixo da pelota. Ela descreve o arco e morre na fundo da rede. Torres corre para o canto e desliza de joelhos para a bandeira de escanteio. O mundo volta a se mover. Soam as castanholas. Aguda o trompete. A Fanzone é tomada pela Fúria.

Dali pra frente, só festa. “Donde están los alemanes, los alemanes donde están?” era o que se podia ouvir alto. No estádio, o rei Juan Carlos abraca a rainha Sofia. O primeiro ministro Zapatero comemora o feito que ele também gostaria de alcancar: unir a Espanha. Na celebracao da bola, todos os espanhóis estao juntos. Esquecem diferencas etnicas e disputas politicas. Ao menos por um momento, nao sao andaluzes, galegos ou bascos. Sao espanhois. No dia 29 de junho de 2008, pelo futebol, cantam lado a lado, sinceros: “Espana es una, y no cincuenta y una! Espana es una, y no cincuenta y una!”. Oooolé!

PS: Tenho fotos, muitas fotos, ilustrando tudo essa lorota aí de cima. Infelizmente, no computador onde estou nao dá pra baixar as imagens. Farei assim que possível.

PS2: Perdao pela falta de acentos, nao consigo me entender com esse teclado. Perdao também por possiveis muitos erros. O minutos estao correndo e nao dá tempo de revisar, pois pago essa porra em Euro.

Em transito

Estou no meio de uma viagem. Viajar é sempre fantástico. Aquela coisa toda de conhecer novos lugares e encontrar figuras marcantes pleo caminho. Fazer isso na companhia de grandes amigos entao, nem se fala. Comigo nesta trip, os paraibanos Alex Maia e Rinah Souto: riso garantido.

Passamos por Frankfurt (comemos salsichao – lá ele! -, óbvio), Budapest (ainda nao sei bem como definir a cidade, mas gostei muito) e Munique (que é linda, mas mesmo que nao fosse, tem cerveja. Mentira, tem muita cerveja. É a terra da cerveja. É cerveja de todo tipo. Tem a cerveja mais antiga do mundo. As cervejas sao boas. E a Franzsiskaner é barata. E a caneca de um litro que eu peguei emprestada no Biergarten está pesando muito na mochila e acabando com minhas costas, mas vale o sacrifício…).

Ainda passaremos por Cracóvia (para ver o resquícios de Awshiwtz – é assim que escreve? ), Praga, Berlim e Amsterdam. Se der, uma parada em Colonia, para o maior festival de reggae da europa.

Hoje, estou em Viena. Ontem, vi aqui, aqui mesmo, a final da Eurocopa 2008. E aí, bem…e aí…

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